Na fossa

Na fossa

As Madalenas são a forma mais humana de vida.

Sabe aquela expressão que diz "chorar feito uma Madalena"?

Quem me dera.

Nada como uma boa fossa. Para uma grande dor, nada como ser uma Madalena.

E em matéria de humanidade, elas são PHD. Porque são daquela gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas - já diria Marla de Queiroz.

Madalena não tem pressa de resolver. Madalena sabe o valor de um bom choro.

Sabe criança que se esgoela de chorar e dorme tranquila logo em seguida?

É disso que estou falando.

Por isso, criei um grande apelo.

Um apelo ao luto.

E dedico a vocês, "fortinhas". A vocês que não se deixam abater por homem nenhum. A vocês que desenvolveram a habilidade de compartimentar os problemas, deixando os amorosos na gaveta de "não tenho tempo pra isso agora".

Minha prima de 15 anos segue um mandamento à risca: nunca, jamais, sob nenhuma circunstância, sofra por causa de algum menino. Não comprometa suas notas, não deixe de sair, de dormir, de atualizar seu Facebook, etc.

E ela é campeã. Não se entrega nem sob decreto. Não importa o quão trágica tenha sido a sua história com o ex - que, pra resumir a história, se fosse bom, não seria "ex".

E ela não é a única. Nenhuma das amigas aceita o sofrimento da outra se este for causado por algum menino. É a regra de convívio das auto-denominadas "amigas para sempre".

Irônico, não?

E por mais que essa negação não faça o menor sentido pra muitos, faz todo possível pra elas. Como elas são fortes e superiores, não? Engolem o choro até a fase ruim passar. E quando a chuva passa, lá estão elas: ilesas.

Quanto mais você ignora a ferida, mais tempo ela leva para cicatrizar. E quando o período ruim passa, você percebe que não houve evolução alguma. Só se aprende caindo.

E há uma imensa contradição nesse comportamento. Vejo nessas meninas, um otimismo e vontade de viver imensos e inspiradores. Carpe Diem, viver intensamente cada momento, e blá blá blá. Só que ao negar a decepção, todos esses valores vão - desculpe a piadinha - direto pra fossa.

Faz-se a opção pela apatia.

O quão intenso é isso?

Porque pra essas meninas, esse aspecto da vida, o amoroso, é superficial demais pra ser chamado de "problema real". Conflitos entre os pais, dificuldades no colégio, crises financeiras em casa, isso sim é motivo de preocupação.

Ok. Essa parte a gente até entende.

O que não entendo é essa incoerência com a própria realidade. Esse desprezo pelos próprios problemas.

O sentimento de felicidade quando o menino liga, não é real? O que ela sente por ele, é superficial pra ela? Coração disparando, mãos suando, isso não é muitas vezes a razão da distração dos estudos? E essa é permitida, e compreensível, não é?

Por que ficar feliz quando apaixonada é válido, mas infeliz com o coração partido é perda de tempo?

E o que é mais coerente que uma menina de 15 anos chateada porque o namoro acabou? Não, ela não tem contas pra pagar. Não, ela não sabe o peso da responsabilidade por uma família.

Mas ela está vivendo em coerência com a própria realidade. É difícil pensar na comparação, mas ela está enfrentando o próprio dia a dia da maneira que sabe - nem que seja chorando antes de dormir -, assim como seus pais o fazem ao cuidar do lar e das contas.

E cansei de ver ações iguaizinhas às dessas meninas de 15 anos - mesmo entre mulheres 15 anos mais velha que elas. Elas não sentem. Resolvem e ponto. Tem gente passando fome.

Ausência de sofrimento aparente nos torna superiores? Sinceridade aos próprios sentimentos e coragem para encarar a dor, são inferioridade?

E porque desprezar um aspecto da sua vida só porque ele parece fútil comparado aos desastres dos outros? Se ele é motivo suficiente para alegria, porque não o é para tristeza?

Você não comemora uma promoção no trabalho? E você reduz a comemoração porque ela não é nada comparada a um pai de família que finalmente consegue um emprego? Cada um vive em coerência com a própria realidade, ainda que você possa ajudar o próximo.

Então porque segurar o choro se as coisas saem dos trilhos na sua vida?

Só as Madalenas entendem isso. Madalena é que é mulherão. Mergulha de cabeça na fossa sem medo de ser feliz.

Elas sim vivem grandes momentos. Porque são elas que vivem a vida em sua integridade, sentindo tudo em carne viva. São elas que colecionam histórias homéricas pra contar.

Só entra em luto quem fica vivo. Então permaneça viva.

Renda-se. Reconheça que a tristeza faz parte da vida. Cada momento, bom ou ruim, compõe a partitura da sua história. Se você pular uma parte, a música toda perde o sentido.

Sentir dor é a prova de que estamos vivos. E portanto, a prova de que ainda temos potencial para sentir felicidade.

Entregue-se à dor assim como você se entrega à risada quando vê/ouve algo realmente engraçado. Permita-se chorar feito uma madalena. Você não vive apenas de doce. O amargo também faz parte. Tristeza e alegria são apenas sabores diferentes, e alimentam a alma com o mesmo fim.

Caso contrário, é como passar o resto da vida à base de Club Social. Resolve-se a fome e o tempo, mas não se saboreia a refeição de uma macarronada ao sugo.


Permita-se chorar, espernear, ficar furiosa, quebrar pratos, e o que for preciso - não preciso dizer que desde que não machuque quem não tem culpa de nada, né? A primeira reação é o sentimento mais espontâneo e confiável. Vontade de chorar na primeira reação? Fique à vontade.

Sofrer não é somente tão importante quanto ser feliz. Sofrer é pré-requisito para você saber chamar a felicidade pelo nome quando encontrá-la. Sem dor (passageira), sem aprendizado (para sempre).

E o que você está esperando para se afogar num pote de sorvete e seguir em frente?

Marianna Greca é publicitária e nerd assumida. Social Media, webwriter, tradutora e desenhista compulsiva. Tão louca por Internet quanto pela Ilíada. Acredita que assumir a maternidade do mundo é o melhor caminho para a felicidade.

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