Mulheres se organizam contra assédio nas ruas

Assédio nas ruas

“Esse vestido não significa que você deve me molestar”, uma das frases do movimento Hollaback que está no perfil do Facebook. Foto: Reprodução/ Facebook/ HollaBack!

Quase todas as mulheres já receberam alguma cantada ou comentário sobre seu corpo na rua. Algumas destas relatam que já foram xingadas ou tocadas por completos estranhos, simplesmente por circular em vias públicas. O assédio nas ruas é uma realidade e já existe quem lute contra isso.

No Brasil o debate sobre as cantadas vem ganhando corpo e, internacionalmente, uma onda de reação já está em curso para tentar resolver o problema. Uma grande força de combate a esse tipo de ação é a Hollaback, que nasceu de más experiências da diretora executiva e cofundadora, Emily May, quando esta tinha 18 anos e se mudou para Nova Iorque.

Em 2005, aos 24 anos, Emily e mais seis amigos, dos quais três eram homens, abriram a Hollaback. E desde sua fundação, a instituição comanda um levante internacional de reações organizadas digitalmente conta o assédio de rua por todo o mundo. Segundo a organização, hoje existem afiliados em 62 cidades em 25 países, trabalhando em 12 idiomas diferentes.

Existem, hoje, 300 organizações espalhadas pelo mundo que foram treinadas pelo grupo da Hollaback, por meio de extensivos seminários online. O objetivo geral é expandir a consciência pública sobre o assédio de rua e os resultados parecem se manifestar. A diretora diz que, atualmente, é muito mais fácil conversar com as pessoas sobre os assédios do que no passado.

"Chega de Fui Fui"

No Brasil, recentemente, a campanha "Chega de Fiu Fiu", criada pela página "Olga" - que informa e propõe discussões sobre sexualidade e feminilidade - foi quem protagonizou as discussões ao redor do tema. Sem o objetivo de "acabar com a cantada", a proposta era promover a discussão sobre o direito da mulher se sentir segura fora de casa e mostrar como o elogio forçado pode ser abusivo.

Os "fiu fius" foram alvo de críticas no que tange sua abordagem unilateral e ofensiva de aproximação sexual, sendo que os homens tomam por obrigação a aproximação junto às mulheres. "Quando transformamos em coisa rotineira o fato da mulher não ter espaços privados - nem mesmo ser dona do seu próprio corpo -, incentivamos a violência", diz o texto na página do coletivo.

Uma pesquisa feita pela jornalista Karin Hueck - disponível no site Olga -, realizada com 7762 mulheres, revela que 99,6% delas já sofreram algum tipo de assédio e 82% não gostam desse tipo de abordagem. O que nos leva, então, a refletir sobre a gravidade do problema.

Em países como Egito e Índia, casos graves e notáveis de assédio contra as mulheres são registrados há muitos anos e, especialmente, na última década. A exemplo da estudante indiana de 18 anos, que morreu em decorrência de um estupro em dezembro do ano passado.

E apesar de o Egito ter reforçado suas leis contra os assédios sexuais de rua, em 2012, incluindo apalpadas e assovios, um grupo chamado HarassMap, que acompanha em tempo real relatórios de assédio de rua, afirma que, em geral, essas leis não são cumpridas, enquanto, frequentemente, a culpa recai sobre a vítima que relatou a agressão.


A influência da Hollaback sobre esses países, e muitos outros, vem para tentar combater a mentalidade social de que as mulheres estão nas ruas disponíveis ao prazer masculino e que sua postura é o motivo das agressões sofridas.

E, no Brasil, a mentalidade não é muito diferente. Depoimentos disponibilizados pelo grupo da campanha "Chega de Fiu Fiu", mostram como o preconceito velado sobre o corpo feminino pode partir de todos os lugares.

Um deles conta: "Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, ele veio em cima de mim no ponto de ônibus, com o pênis para fora, se masturbando e me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou só para fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido e, depois que contei, ela perguntou: ‘E o que você fez para provocar o homem? Ele não colocou o pênis para fora à toa’. Nunca mais contei nenhum episódio de assédio".

Daí vale a reflexão: será que nós, mulheres, também não fomentamos o preconceito ao apoiar a culpa das vítimas? Será que não assumimos uma postura equivocada ao considerar as agressões diárias parte da normalidade? Cabe a cada uma dizer não a esse tipo de abuso e colaborar para que, cada vez mais, todas nós possamos circular sem medo de sofrer um ataque a cada esquina.

Por Juliany Bernardo (MBPress)

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