Mulheres desesperadas

Mulheres desesperadas

Foto: Fernando Torquatto.

Mulher desesperada dá um desespero! Posso falar com carteirinha de sócia honorária, já que faço parte desse clube vasto, espalhado pelo mundo. Cá entre nós, o desespero assola a grande maioria das mulheres, mesmo que em algumas com mais requintes de crueldade do que em outras. Mulher se desespera se a unha lasca ou se chove no cabelo escovado bem naquele dia de almoço importante com o chefe. Se desespera se a vaga para estacionar é pequena, mesmo sendo craque de baliza. Se desespera se a conta fica no vermelho - muito mais do que os meninos do time do sexo oposto. Mas quando o assunto é coração, aí o desespero atinge seu grau mais felino. Se ele não responde o e-mail, desespero. Se não atende, quando você liga, desespero. E se diz que vai ligar, e simplesmente desaparece, bom, a mulher de verdade pede pra morrer.

É o que acontece com a personagem de Adriana Birolli, na peça "Manual Prático da Mulher Deseperada", que estreou em São Paulo recentemente. No palco, Alice desespera a plateia ao esperar a ligação do pretendente, Roberto. Passa o espetáculo todo sofrendo, pagando aquele mico de olhar para o telefone a cada três segundos. Se ilude achando que ele não ligou porque estava sem bateria. Porque na verdade pediu que ela ligasse. Porque está preso debaixo de um túnel, sem sinal. Se ilude pra valer, e levanta aquela bandeira da vergonha alheia. Quem é que nunca se iludiu desse jeito?

Alice fala demais, se explica demais, gesticula demais. Como toda boa desesperada. E Adriana, no palco, traz todo o talento já demonstrado com a espevitada Isabel, em "Viver a vida". Aparece de lingerie, se pinta, se troca, faz unha e confissões ao manicure Celinho, se ilude mais uma vez com um affair casado, e acaba na balada, sozinha, desesperada.

Mulher desesperada sozinha em balada é sinônimo de "depressão-pós-final-de-semana". A não ser que, como Alice, você dê chance até ao mais sem-noção da festa, apenas para não ficar plantada, sozinha, no bar. Mulher moderna, bem resolvida, dessas que só se vê em filme, tenta fazer amizade com barman. A desesperada se joga na pista.

O espetáculo todo cansa um pouco, como toda mulher desesperada. Deu sono em muita gente. Foi motivo de gargalhada para outros. E, com certeza, razão de muita conversinha interna, depois que as cortinas se fecharam e cada uma foi para sua casa, em plena sexta-feira. Depois da tempestade... well, uma tentativa louvável de afirmar que há, sim, bonança e luz no final do túnel. Roberto, aquele, motivo de ansiedade e agonia, finalmente liga. Mas para saber se ela atendeu ou não, só conferindo o espetáculo.

Mulheres desesperadas

Foto: Fernando Torquatto.


A peça continua em cartaz na capital paulista, até o dia 19 de junho, no teatro Jaraguá e depois deve rodar o Brasil. É baseada na fusão de três contos da consagrada escritora e jornalista Dorothy Parker (A telephone call, Cousin Larry e The Waltz), e conta com a direção de Ruiz Bellenda, também responsável pela tradução e adaptação da montagem brasileira. Quem divide o palco com Adriane é o ator (super dançarino) Alex Barg. A peça veio para São Paulo em 2007 e antes era exibida em Curitiba, PR, terra natal de Adriana.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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