Mulheres brasileiras são machistas?

Mulheres brasileiras são machistas

Sabrina Sato e Nicole Bahls. Foto: Divulgação

A liberdade sexual vai muito, muito além de conhecer o próprio corpo e saber o que fazer e como fazer para chegar ao clímax. Este é apenas um dos braços dessa revolução que é tema de muitas rodinhas de conversas femininas e masculinas. O direito de escolha e de caça deixou de ser apenas dos homens e, com isso, à mulher passou a ter domínio maior sobre o seu próprio corpo.

As mulheres que abraçaram essa liberdade deixam bem claro que o corpo é delas e que, por esse motivo, o entregam para quem quiser e para quantos quiser. Só que as moçoilas que colocam isso em prática não são bem vistas pela ala mais conservadora. Uma mulher que grita em alto e bom som conceitos como esses é taxada de piriguete e oferecida, provando que o conceito de liberdade sexual depende de quem o interpreta.

Hoje se fala tanto em sexo que podemos dizer que ele serve como base para rotular as mulheres. "Eu não acho isso legal. O sexo não deveria ser o centro de classificação de nada nem de ninguém. As mulheres se repudiam pelo fato de uma usar roupa justa e alimentam o preconceito contra elas mesmas. Não. Melhor seria gosto ou não gosto", pensa a antropóloga Mirian Goldenberg.

Em um dos livros escritos pela pesquisadora,"Toda mulher é Meio Leila Diniz" (Editora Record), ela fala justamente dessa luta pela liberdade. Para quem não sabe, Leila Diniz foi uma atriz brasileira que esteve à frente do seu tempo. Sofreu acusações de homens, mulheres e da igreja por querer ser livre, ou melhor, ser ela mesma. Morreu em um acidente aéreo, em 1972, aos 27 anos. "Faz 41 anos que ela morreu e eu percebo que as mulheres ainda não conseguem ser livres. Elas tentam, mas não têm a força para enfrentar os obstáculos. Leila tinha a liberdade como valor", diz.

Mulheres brasileiras são machistas

Capa da revista Realidade com Leila Diniz. Foto reprodução

Na opinião de Mirian, as piriguetes não seriam um modelo de liberdade, até porque não há um único modelo de ser mulher. "Percebo que a maioria não quer ser piriguete. Quer uma relação sólida com um companheiro, fidelidade dos dois lados", comenta. "Uma cultura como a brasileira enfatiza a sexualidade, mas em países onde não se vive este estigma e as coisas são mais igualitárias, o sexo não é o foco. O que faria a mulher avançar é não ter rótulo, transar com quem quiser ou ter um único parceiro sem ser chamada de nada."

Da mesma maneira que há uma cobrança para a mulher ser padronizada - siliconada e com corpo perfeito - há também a cobrança pelo conservadorismo. Isso porque, conforme explica a antropóloga, a liberdade sexual é uma ameaça ao casamento. "A maternidade passa a ser questionada e isso é um problema para a sociedade. As mulheres já não são tão conservadoras assim. Estão se divorciando, adiando a maternidade, querendo casar mais tarde, trabalhar mais", afirma. "Falar da piriguete não é ser conservadora. É uma forma de defesa. As mulheres admiram, sim, as que são mais firmes em todos os sentidos, que conseguem ser diferentes, mas a liberdade não é só sexual."


Mirian pensa também que esse direito de ser livre também deveria ser estendido aos homens. Afinal de contas, eles também sofrem preconceitos. "Quando você pergunta a uma mulher o que todo homem é, ela diz: galinha, machista e infiel, rotulações associadas ao sexo", analisa.

A antropóloga explica que os homens também se autorrotulam tanto quanto as mulheres e não fazem o que querem com o corpo como muita gente pensa. Na verdade correspondem ao modelo de masculinidade que existe hoje (ter muitas mulheres, ser infiel). "Eles também sofrem pressão para serem desse jeito. E assim como não há um único modelo de ser mulher, também não há um único modelo de ser homem. Existem parceiros fiéis sim!"

Por Juliana Falcão (MBPress)

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