Meu primeiro beijo

No ano de 1990 eu tinha 11 anos. Fazia a quinta série e estudava em um colégio que ficava pertinho da minha casa. Eu ia andando, em companhia da Beth, que foi minha babá até que eu fizesse 13 anos.

Foi nessa época que eu comecei a me interessar pelos meninos, muito embora eles não tivessem nenhum interesse por mim. Eu era uma gordinha que vivia bagunçada e com os cabelos sem pentear direito, e as meninas da minha sala eram magrinhas e andavam em bandos, dos quais eu não conseguia me aproximar.

Eu tinha três grandes amigos: o Celso, o Marcelo e o Gustavo. Logicamente me apaixonei pelos três, mas não tinha coragem de falar o que eu sentia. Escutava com o coração doendo que todos eles eram apaixonados por uma outra menina, Isabela, se não me falha a memória, e eu ainda os ajudava a desenvolver técnicas de conquista. Mas, assim como eu, eles não eram muito populares e por isso nunca tiveram chances com ela, a musa da quinta série.

Um belo dia, o Celso me surpreendeu. Me chamou para ir assistir ao filme Ghost, que tinha acabado de entrar em cartaz. Íamos só nós dois, e isso era a certeza de que ele queria alguma coisa comigo. Quando ele me convidou meu coração disparou na hora, e nunca mais, em toda a minha vida, eu senti uma emoção como aquela: a primeira vez que uma pessoa do sexo oposto me chamou para sair.

O primeiro desafio que surgiu à minha frente foi convencer a minha mãe de que não tinha nada demais eu ir ao cinema com a paixão da minha vida. Ela não queria de jeito nenhum, mas eu usei uma arma infalível: a convenci usando meu pai, pois ele nunca negava nada que eu pedia. Numa tarde de sábado, os dois me levaram na Belina da família ao ParkShopping, cheia de recomendações na cabeça e notas de dinheiro no bolso.

Assim que cheguei, vi o Celso me esperando, ali sentadinho. Hoje em dia eu sou capaz de compreender que ele estava tão nervoso quanto eu, mas naquela época era impossível saber isso. Ele já tinha comprado os nossos ingressos e eu fiquei toda boba, já imaginado que eu ia contar isso pra todo mundo.

Nos sentamos, nervosamente. Nenhum dos dois tinha capacidade de entender o que estava passando na telona, já que estávamos tão tensos, sem saber o que fazer. Até que, lá na frente, o Patrick Swayze encorajou o Celso, que segurou na minha mão e depois me deu um beijo! O galã, em uma das cenas mais românticas que eu já vi até hoje, aproveitou enquanto a sua amada fazia vasos de argila para lhe encher de carinhos A Demi Morre se derretia e eu mais ainda.

Hoje, na hora que acordei, fiquei sabendo que Patrick Swayze perdeu a guerra contra um câncer no pâncreas. Acho que na verdade ele foi descansar, já que estava sofrendo muito com essa doença infeliz. Mas eu não poderia deixar de agradecê-lo, pois graças a ele eu dei o meu primeiro beijo.

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