Madrasta ou “‘boadrasta”?

A terapeuta familiar Roberta Palermo

Roberta Palermo, terapeuta familiar (divulgação)

Chega do estigma de malvada, bruxa má das histórias infantis. A madrasta de hoje - figura frequente nos relacionamentos atuais, nada tem de perversa. O velho rótulo de vilã cai e dá lugar a um conceito moderno, em que ela ganha maior espaço no coração das crianças e assume papel de grande importância na educação e no lazer dos filhos dos maridos e namorados. Se antes ela aparecia apenas depois do falecimento da mãe, hoje o divórcio trouxe a figura direto para dentro dos lares.

A terapeuta familiar Roberta Palermo foi enteada e é madrasta há 12 anos de dois meninos. Por isso, decidiu investir no tema e mostrar que, quando a madrasta é má ou age de maneira inadequada, é porque simplesmente não tem ideia de como deve agir. A partir da própria experiência, resolveu escrever sobre o assunto. É autora de “Madrasta - Quando o homem da sua vida já tem filhos” (Mercuryo) e do mais recente “100% Madrasta” (Integrare).

Livro Roberta Palermo

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O primeiro livro mostra a péssima experiência de Roberta como enteada. “Minha madrasta tinha ciúmes de mim com o meu pai e tornou a nossa vida um horror. Anos depois me tornei uma boa madrasta e quis mostrar no livro que essa experiência pode ser boa”. Na publicação mais recente, ela conta as experiências das mulheres que participam do fórum de madrastas. Esse espaço virtual de discussão existe e é criação de Roberta. Em 2002, ela fundou a Associação das Madrastas e Enteados - AME - que acabou viabilizando o canal on-line. “O fórum ajuda madrastas a lidarem com as questões complicadas e o livro traz o que discutimos lá”.

Ela garante que as publicações não são apenas para as madrastas. O pai é peça fundamental na convivência pacífica entra os que amam. “Ele não pode ter medo da ex-esposa e não pode ter pena dos filhos. Tem que entender que existe vida após a paternidade e que tem direito de ter sua vida também”. Segundo ela, o pai não deve aceitar chantagens da ex-esposa. “Muitas vezes ele quer proteger a criança, mas acaba sendo conivente com os maus tratos emocionais que a mãe faz.”

Ela dá a dica de que é ele quem tem de explicar, por exemplo, que não faz mais sentido deixar os porta-retratos do 1º casamento no aparador da entrada da sua casa. “O pai deve impor regras, limites e rotinas em casa, mesmo que a criança só venha a cada 15 dias. Não há madrasta que aguente uma criança que não tem hora para dormir, come pela casa toda e não toma banho, porque o pai se sente culpado por causa da separação”.

Para as madrastas, a dica é deixar claro, por meio de atitudes, que não quer ocupar o espaço da mãe. “Não deve falar mal dela e nem desfazer de suas escolhas ou ideias. Pode dar sugestões, mas as decisões finais sempre serão do pai”.

E como as mães devem agir? Não é nada fácil liberar os pimpolhos para gostar de outra mulher. Mas essa é a realidade de muitas mulheres que, após a separação, precisam aprender a lidar com uma estranha na vida dos filhos. “A mãe terá que entender que é fundamental que a criança tenha os seus dias de convivência com o pai e, portanto conviverá também com a madrasta. Ela também terá um namorado ou marido com quem a criança conviverá”.


Roberta indica que não é nada adequado sumir com a criança nos finais de semana do pai, falar mal dele e da madrasta ou, ainda pior, acusar o pai de abusar sexualmente da criança. “Esse golpe baixo anda na moda por ai e é prejudicial para a criança. O pai perde o direito de conviver com a criança para proteção dela, mas quem protege essa criança da mãe?”

Roberta acredita que, atualmente, está claro tanto para a madrasta quanto para os outros envolvidos na relação que ela terá atitudes de mãe sim, mas nunca a substituirá. Mas não é isso que acontece em todos os lares. Para vencer o estigma é preciso se atualizar. “São mais de 60% de famílias reconstituídas nos dias de hoje, portanto ter uma madrasta ou padrasto passou a fazer parte das famílias atuais. Fica até deselegante ter esse tipo de preconceito”.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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