Machismo cordial é uma forma de depreciar a mulher sutilmente?

Machismo cordial

Foto: Tetra Images/Corbis

A luta contra o machismo tem evoluído muito ao longo dos anos e apresenta conquistas significativas no mundo e, mais especificamente, no Brasil. A criação das Delegacias da Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres no Governo Federal e da Lei Maria da Penha são objetivos feministas alcançados com muita luta. Mas o caminho é longo e existe um machismo muito difícil de combater, aquele que não se mostra: o machismo cordial.

Este não se trata de agressão direta às mulheres, mas abrange uma atitude depreciativa em relação a elas num nível quase imperceptível, um machismo velado. Salma Ferraz, autora do livro "Dicionário Machista - Três mil anos de frases machistas contra as mulheres" (Editora Jardim dos Livros), conta: "Se em países muçulmanos vigora a Xaria (Código de Leis do Islamismo que impõe a Burca às mulheres), uma verdadeira prisão ambulante, no Brasil se tem outro tipo de escravidão: a Bunda".

Ela explica que vivemos uma cultura na qual as mulheres dançam viradas para a parede, de modo que seus rostos, suas reais belezas, não importam, mas apenas seus corpos. "É o que eu denomino de a ‘hiperbunda midiática’, apenas um pedaço de filé", explica ela. E presenciamos esse fenômeno, no qual uma mulher perde sua identidade para ser designada de acordo com o formato de seu corpo: Mulher Melão, Mulher Moranguinho, Mulher Melancia, e (infelizmente) muitas outras.

Aqui temos uma subestimação muito grande das mulheres, chegando a ser pior do que quando acontece diretamente. "Contra o machismo declarado há como lutar, contra o cordial, não, porque aparentemente ele enaltece a mulher", alerta Salma.

A autora se abismou ao assistir um programa sobre como se constrói uma subcelebridade, uma "popozuda", e perceber que as mulheres que se rendem a isso, gastam tudo o que podem para manter o bumbum, abdicando do trato a outras partes do corpo como o rosto ou, até mesmo, suas vaginas. "Muitas garotas fizeram declarações sem mostrar o rosto. Porque tomando hormônios femininos para ter coxas e músculos salientes, elas acabam com espinhas na face, a voz mais grossa e até com aumento do clitóris", relata.

Machismo cordial X Cavalheirismo

Mas não confunda o machismo cordial com o cavalheirismo. Mesmo que a linha de separação entre eles pareça tênue, pode ser fácil identificar. "Cavalheirismo é carinho, proteção, gentileza; machismo é domínio, orgulho, poder e desprezo pela mulher", opina a escritora. Por exemplo, quando o Titanic afundou, os homens deram lugar primeiro às mulheres e crianças, mas não o fizeram por considerar as mulheres mais frágeis e, sim, porque elas dão à luz e com elas o mundo prossegue.

Além disso, todos têm atitudes "cavalheiras", inclusive as mulheres. Seja ao ceder o lugar na fila para quem esteja apressado ou levantar de um lugar para que uma pessoa mais necessitada se sente, essas atitudes gentis expressam o conceito fundamental de cavalheirismo. Ou ainda quando o próprio homem paga a conta ou ajuda a carregar sacolas pesadas, por exemplo. Ao contrário do machismo velado, que se esconde no véu da gentileza para diminuir o valor das mulheres, segregando, subestimando e limitando-as a apenas um objeto sexual.

Para combater esse tipo de machismo, não basta apenas discutir com os homens (e mulheres também!) sobre o verdadeiro valor feminino, sobre o que realmente importa em uma mulher além de seu corpo e sua beleza. É preciso criar os filhos de modo que eles vejam em cada pessoa um mundo singular e complexo, não apenas uma aparência com diversos objetos em volta.


"É importante educar melhor nossos filhos e filhas para que eles nunca sonhem em ser uma ‘popozuda’, uma ‘mulher fruta’ ou um ‘Pitboy’. Quem ensina os homens são as mulheres", diz Salma. Por isso, mostre às crianças que o importante não é apenas o corpo, o vestuário ou aquilo que se possui, mas, sim, todo o conhecimento adquirido, as opiniões carregadas e o bem que se faz aos outros.

As crianças são mesmo o futuro da nação e do mundo. Portanto, é sobre elas que devem recair os seus maiores esforços de conscientização para que, no futuro, eles tenham um mundo melhor para viver.

* Serviço: Salma Ferraz, autora do livro "Dicionário Machista - Três mil anos de frases machistas contra as mulheres".

Por Juliany Bernardo (MBPress)

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