Jogos de poder

Jogos de poder

A diferença entre conquistar e acorrentar uma alma é muito mais complexa e perigosa do que parece nas poesias e livros de auto-ajuda. Os jogos de poder que assombram as relações podem levar casais que se amam frente a um abismo difícil de escapar.

Esses jogos, muitas vezes velados, criam relações desniveladas, onde a competição se sobressai ao consenso. E ai, tudo que se sente fica superficial, os nós ficam fracos e, sempre, um dos lados acaba sofrendo abusos de manipulação.

A psiquiatra Ana Taveira, de São Paulo, acredita que jogos de poder aparecem quando a parceria e os objetivos do casal, como crescer juntos e ter realizações compartilhadas, dão lugar a uma espécie de competitividade. "Se a relação vira uma competição, consequentemente um dos dois sai perdendo. Acredito que esse modelo vem do trabalho, e as pessoas não têm a sabedoria para separar o que é do trabalho e o que é da vida familiar", afirma.

As pessoas acham que, apenas porque estão tendo uma vida em comum com outras, isso significa que precisam gostar e querer as mesmas coisas - e esse é o maior erro de uma relação. "É preciso entender e aceitar a autonomia de cada um dentro da relação", afirma a psicóloga Cida Lessa, que atende casais, também em São Paulo. Isso significa que os desejos, pensamentos e sonhos podem sim ser diferentes, mesmo para quem vive sob o mesmo teto.

Cida alerta que esses jogos aparecem já no início da relação, quando um tenta ditar regras e impor opiniões e, cego pela paixão, o outro não vê. "O problema é que, no começo, quase tudo é aceito e aí é que mora o perigo. Já nas primeiras divisões de tarefas é preciso estabelecer limites para não passar o comando da vida para o outro", alerta.

Em algumas situações, Ana avalia que um dos cônjuges pode estar passando por uma fase mais difícil, até mesmo uma depressão, e torna-se apagado às decisões do casal. "Também há o fato de haver pessoas competitivas na vida em geral, por seus temperamentos", lembra a psiquiatra. São aquelas que competem nas pequenas coisas: se tem filhos, querem que os filhos seja os melhores em tudo, seus bens pessoais precisam ser de última geração e as roupas terem as etiquetas das marcas do momento. "Essas pessoas precisam de ajuda de um psicólogo, para diminuírem o nível de cobrança", sugere.

Na opinião da profissional, um relacionamento nunca deve ser baseado na competição e sim na complementação. "Se chegou a esse nível, existe algo errado. Terapia de casal está indicada nestes casos", afirma Ana. "A competição entre um casal transforma o que devia ser admiração em inveja", completa Cida.


O melhor é tentar identificar esse tipo de relação cedo e não permitir que abale as estruturas do casamento. Se ao sair para jantar um quer comer peixe o outro pizza, que tal entrar num consenso e escolher um lugar que sirva as duas coisas? Salvar um casamento assolado pela síndrome de competição depende de diplomacia, tolerância e muito bom senso. E mais: de compreender a importância do respeito pela individualidade.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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