"Já fui empurrada porque disse ‘não’ para um rapaz na balada"

Agressividade na balada

No último dia 30 de setembro, o caso da estudante de direito Rhanna Umbelino Diógenes, de 19 anos, repercutiu em todo o país. Jornais, programas de televisão e até redes sociais se mobilizaram com o acontecido. A jovem de Natal (RN) teve seu braço quebrado ao se recusar a beijar um rapaz na balada. Por mais que tais circunstâncias choquem, ela não é a primeira e infelizmente, ao que tudo indica, não será a última a sofrer agressões dentro de uma boate.

Outra jovem, que pediu anonimato, nos deu seu depoimento sobre a agressão que sofreu: "Já fui empurrada e caí no chão uma vez porque disse 'não' para um rapaz na balada que me pediu um beijo. Ele foi embora rápido e acabei não registrando BO (boletim de ocorrência) nem nada, pois fiquei assustada demais pra levar isso à frente. Fiquei com o corpo dolorido e machuquei a mão, pois na queda outro rapaz sem querer acabou pisando em mim".

Esta atitude ofensiva pode vir em forma de palavras, xingamentos, depreciações diante de um público e, nos casos mais graves, físicas e até estupro. O motivo? A psicóloga Olga Tessari nos explica: "Pode ser um rapaz mimado que não sabe lidar com um ‘não’, pode ser que ele esteja querendo aparecer para os amigos e fica irritado por não conseguir seu intento".

E completa: "Em geral, o homem fica agressivo quando ele conclui que a garota está a fim e, ao falar com ela, ela faz um tipo difícil e diz não. Digamos que ele fez todo o ritual para se aproximar dela e considera que, depois disso, ela precisa corresponder. Ainda temos o homem machista que pensa que todas as mulheres devem estar disponíveis para ele na hora em que ele quiser".

A partir da experiência de casos que o advogado Marcelo Muniz Souza, do escritório Henrique Baptista Advogados Associados, vem analisando, ele afirma: "O jovem de hoje é um sujeito mais atrevido, detentor de informações que viajam na velocidade da internet, sabe mais e, por isso, é mais arrogante. A linha entre esse cenário e todo transtorno que causa é muito tênue".

O advogado nos revela uma medida que muitas baladas vêm adotando por consequência do aumento das agressividades noturnas: "Em São Paulo e no Rio de Janeiro, instituíram a famosa lista negra, que fica na entrada e visa identificar os "brigões" e monitorá-los no interior dos estabelecimentos, sendo essa medida muito mais rígida em outras casas, em que a pessoa tem vetada sua entrada".

O consumo excessivo de álcool também pode ser um fator que traz mudanças abruptas na personalidade dos rapazes, principalmente na sociedade atual, onde, como a própria psicóloga expõe, as baladas formam um cenário muito favorável à situação: "As garotas se vestem de forma vulgar, atraente por demais (algumas até parecem que estão apenas procurando sexo por conta da sua vestimenta, de sua postura) e rapazes ávidos por conquista sentem-se incomodados quando a garota diz não".

De qualquer forma, ao sofrer algum tipo de agressão, Marcelo nos explica como a vítima deve recorrer: "Num primeiro momento é a comunicação do fato à autoridade policial, podendo ser uma especializada (se o agressor for o namorado, por exemplo, há a Delegacia especializada em atendimento à mulher vítima de violência doméstica - DEAM). Lá a vítima será encaminhada para realizar o exame de corpo de delito, a fim de que fiquem comprovadas as lesões e sua gravidade, que poderá ser grave, se ocasionar a incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias. Isso feito, a autoridade deverá relatar o fato e encaminhá-lo à Justiça".

Olga deixa uma dica para evitar este tipo de comportamento: "Ser direta e objetiva é o caminho. Se ela não está mesmo a fim do homem, então diga isso com todas as letras (de forma educada) e saia de perto dele. Se ele insistir em ir atrás dela, ela deve chamar o segurança da balada ou pedir ajuda aos amigos que estão com ela para afastar o homem dela".


A mulher que sofre algum tipo de atitude negativa, principalmente física, e deixa passar batido está se prejudicando e defendendo o agressor. O advogado acredita que as mulheres que não denunciam são aquelas que ainda vivem à sombra de uma sociedade extremamente machista, que atribui a omissão ao medo ou a uma justificativa sempre inaceitável: "O machismo ainda é uma chaga em meio à sociedade".

O caso de Rhanna só nos mostra que a mulher tem voz e que pode contar com a ajuda de muitos brasileiros a seu favor, sem falar que a justiça também tem muitos recursos em defesa da mulher, porém se ela ficar em silêncio ninguém conseguirá ajudar.

Por Alessandra Vespa (MBPress)

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