Eu amei Victoria Blue

Eu amei Victoria Blue

Foto: divulgação

Muitas das histórias de amor (e ódio) que nos encantam na literatura normalmente são frutos da imaginação de seus autores, tudo boa ficção. A gente viaja com os personagens, fantasia com as idas e vindas que, quase sempre, nada tem de semelhança com a realidade. Mas, às vezes, algumas dessas histórias são muito mais que reais que seus autores gostariam. É o caso de Estêvão Romane, que viveu um intenso amor em Nova York até descobrir que a namorada era garota de programa.

A história dele - de desilusão e amor - acabou virando um livro. Em "Eu Amei Victoria Blue" (Geração Editorial, 2010), Estêvão se desnuda, esquece as cascas, elimina as aparas e descreve toda relação que teve com Fernanda, a encantadora vizinha que roubou muito mais que suas noites de sono. "Alguns nesta cidade já tiveram o privilégio de estar com Victoria Blue, mas eu não pagaria US$ 2 mil por ela. Ainda que ela fosse tudo aquilo em que cheguei a acreditar", escreveu.

Depois de se descobrir numa relação recheada de mentiras - foram quase oito meses de falsas histórias - Estêvão decidiu colocar tudo no papel. Foi o jeito de organizar o sentimento. Todos os tumultos, desejos, invenções, vontades são esmiuçados pelo autor que, jura, não teve vergonha alguma ao se expor, mesmo remexendo em sua própria dor e decepção. "Tanta gente se expõe de uma maneira muito menos elegante que não vejo problema em escrever um livro contando algumas coisas".

Ele garante que o livro não é um relato decepcionado - e sim muito mais apaixonado. Diz ainda que não escreveu por vingança, apenas porque é uma boa história, que merece ser compartilhada. "Eu tinha de pôr minha cabeça em ordem. Escrever foi o melhor jeito que encontrei de fazer isso."

Todos os personagens são reais, sobreviventes de uma cidade que nunca dorme e onde tudo acontece. Os nomes de todos - menos de um, que pediu para continuar identificado - foram trocados, para preservar a identidade de cada um. "O único nome real no livro é o do Kim, coreano dono da vendinha da esquina de casa em nova York. Ele me pediu pessoalmente para deixar seu nome verdadeiro. Kim é muito especial, quando contei a ele o que descobri sobre Fernanda, saiu de trás do balcão e me abraçou em lágrimas". Victoria Blue também é fruto da imaginação do autor. "Seu nome de guerra era outro... mas devo admitir que ela foi muito mais criativa que eu".

Até Estêvão preferiu um pseudônimo. "O Davi [personagem dele] está preso ao texto escrito, àquelas circunstâncias, parado no tempo, sem chance de mudanças. Mas eu, Estêvão, não. Eu continuo minha vida, por diversos rumos, muitos certamente imprevisíveis".

Em entrevista ao Vila Dois, ele conta mais sobre a vida, a descoberta e a sensação de liberdade depois de se livrar do mundo de mentiras. "Eu vivi uma grande encenação, uma peça de teatro. Espero que nunca mais esteja tão próximo de alguém e, ao mesmo tempo, tão distante. É uma sensação horrível quando se descobre tudo, perde-se o parâmetro do que foi real ou não".

Qual foi a tua reação na hora da descoberta em si? Li que você deu risada...

Foi exatamente isso, dei muita risada - e continuo rindo até hoje. No entanto, quando descobri que ela não somente tinha mentido a respeito de sua profissão, mas a respeito de todos os aspectos de sua vida, fiquei com medo. Percebi que seu caráter estava completamente fragmentado, e não sabia o que isto poderia acarretar contra a minha integridade física e emocional.

Quanto tempo ficou com ela depois de descobrir a verdade?

Eu nunca desconfiei que ela pudesse ser uma garota de programa. No entanto, havia percebido que ela era mentirosa compulsiva mais ou menos 20 dias antes da descoberta, talvez um pouco mais. Assim que descobri tudo, fiquei com ela um dia, e saí correndo.

A ‘Fernanda’ sabe do livro? Vocês mantêm algum contato hoje?

Ela não sabe do livro, e não mantemos contato. Infelizmente, creio que não tenhamos muito que conversar, depois do acontecido. Deixamos de nos falar completamente um mês após minha descoberta.

A história é de amor - e não de decepção, certo? Hoje já superou o ocorrido?

É uma história de amor. Decepção é um sentimento que nos faz remoer tudo, num ciclo muitas vezes interminável, que só leva a pessoa à tristeza e angústia. Devemos aprender com nossa história de vida e seguir adiante, nunca parar no tempo. Eu considero que superei o ocorrido assim que saí do meu apartamento, mala de ternos numa mão, mala cheia de cacarecos na outra, fone de ouvido tocando Flaming Lips, fugindo de Victoria caminhando em direção ao Central Park. A sensação de liberdade, de felicidade, foi algo indescritível.

Eu amei Victoria Blue

Estêvão Romane. Foto: divulgação

Escrever foi um pouco vingança?

Não, de forma alguma. Não guardo qualquer rancor em relação a Fernanda. Pelo contrário, quero mais é que ela esteja muito bem de saúde - física e mental.

Hoje mais experiente e depois do livro, acredita que muitos relacionamentos são baseados em mentiras?

A mentira é parte integrante de todo o tipo de relacionamento - pessoal, amoroso, profissional, às vezes mentimos até para nós mesmos. No entanto, não creio que muitos relacionamentos sejam baseados em mentiras, apenas que a mentira faz parte do dia-a-dia. Pode-se ter dúvidas sobre a fidelidade de um parceiro (ou parceira), mas acho que são raros os casos em que essa tal pessoa, na verdade, é completamente outra.

Acha que foi ingênuo ao não perceber que ela era garota de programa?

Não. Ela era profissional no que fazia, jamais deu qualquer indício. No entanto, depois de viver o que vivi, posso dizer que tenho mais facilidade em perceber esse tipo de coisa.

Você foi estudar em NY, certo? Por que voltou?

Voltei para o Brasil porque cansei de Nova York, não teve nada a ver com a história. Após a história que vivi com Victoria, fiquei mais ou menos um ano e meio vivendo no mesmo apartamento, ainda com os móveis que a Fernanda deixou para mim.


Como a vida segue agora, no Brasil? O coração já tem outro amor?

No momento, estou solteiro. Mas o coração já amou muito depois de Victoria... Considero que tenho sorte no amor, vamos ver o que o acaso trará. Não fiquei mais desconfiado, apenas mais esperto e safo.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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