É festa! Parte 1: A Oportunidade

Baile de Máscaras Parte 1

Foto: John Smith/Corbis

"O que você vai fazer este fim de semana?", perguntou ansiosa a amiga ao telefone. "E... eu? Nada, mas... Por quê?", meio assustada com tamanha euforia, afinal ela mais do que ninguém sabia que naquele momento, se pudesse, mergulharia em um buraco sem fundo. Terminar um relacionamento de anos não era das experiências mais agradáveis.

Na tentativa de convencê-la, a amiga tagarelava animada dizendo que o melhor remédio para um "pé na bunda" era desfilar maravilhosa para o desejo dos homens e inveja das outras mulheres.

E diante do comentário até sorriu desconsolada, sentindo-se quase incapaz de tal feito, mas na falta de coisa melhor a fazer, resolveu continuar ouvindo os argumentos da outra que, empolgadíssima, comentava dos convites para um Baile de Máscaras super badalado na virada do ano.

O evento acontecia para um público seleto. O que no vocabulário dela, significava gente rica ou famosa. Algo que definitivamente não enchia seus olhos, mas que fazia sentido para a amiga, uma atriz simpática e divertida cuja carreira não decolava nunca.

Excitadíssima com a possibilidade de circular naquele ambiente VIP, como se tivesse ganhado um prêmio da loteria, a outra explicava que poderiam unir o útil ao agradável. Tanto oportunidades profissionais - para ela, obviamente - quanto possibilidades sensuais - para as duas "desencalharem" (palavras dela).

"Amiga, esta é nossa oportunidade de enfiarmos o pé na jaca, comer melado e se lambuzar, tudo ao mesmo tempo agora... Sem nomes e rostos, as possibilidades para arrumar um beijo na boca - ou algo mais - com um gato super poderoso é enorme". Finalizando a declaração com uma deliciosa gargalhada.

E enquanto a outra falava, falava, falava... Sua mente viajou. Discutiam sobre sexo sem compromisso, justo quando ela acabava de romper um relacionamento estável de cinco anos pelo mesmo motivo - sexo e compromisso!

Apesar de uma vida sexual, pelo menos para ela, satisfatória, seu namorado sob o pretexto de apimentar a relação, sempre sugeria algo mais arrojado. Dizia que ela era muito careta, que o relacionamento estava frio... Com idéias de ménage-à-trois com outras mulheres ou, simplesmente dando a entender o desejo de um relacionamento aberto.

Ainda que em suas fantasias as possibilidades até parecessem interessantes, naquele momento achava tudo impossível. Não era nenhuma puritana, mas seguia relutante, pois sabia que na prática não estava preparada, viviam um mau momento e odiava sentir-se acuada.

Nem mesmo antes dele tinha vivido sexo casual, quanto mais parceiros múltiplos. Sempre pensou que a base do sexo era o amor. E o deles, bem... Já não andava lá grandes coisas.

E tudo piorou quando ela descobriu da pior maneira que toda aquela historinha de namorada fria e careta era um argumento machista para legitimar a própria safadeza. Na prática, tudo o que ele queria era ter mais e mais mulheres em sua cama.

Certa vez, como brincadeira, só para irritá-lo um pouco, ela virou o jogo. Tentando mudar a perspectiva para que a entendesse. Sugerindo que aceitaria um ménage-à-trois sim, desde que fosse outro homem, ao invés de outra mulher.

Foi então que percebeu que seu discurso tinha dois pesos e duas medidas. Ele ficou cheio de raiva. Possesso partiu para xingamentos e ali, mesmo sem perceberem, estava sendo marcado o começo do fim.

Sinceramente, nem ela sabia se seria capaz de realmente ter uma outra pessoa em sua relação, homem ou mulher, mas achou de um egoísmo ímpar a fantasia só funcionar dentro dos padrões dele.

Não demorou descobrir que ele já vinha mantendo casos com outras mulheres, algumas até conhecidas. Sentiu-se traída. Romperam. Deixando um rastro de mágoa e frustração.


"E aí, topa amiga?!" - disse a acordando de seu devaneio - "Já até comprei as máscaras, você vai amar..."

E sem pensar muito mais respondeu - "Topo, mas essa tem que ser "a" festa. Algo para exorcizar todos estes fantasmas guardados no armário. Não aceito nada menos que isso, viu?", quase se arrependendo, mas já era tarde, a amiga estava eufórica do outro lado da linha telefônica.

Que viesse a festa então...

Beth Vieira é designer de moda por formação e webwriter por paixão. Uma loba em pele de cordeirinha que desde 2003 escreve sobre erotismo e comportamento sexual na web. Contato:beth.vieira@gmail.com

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