E esse tal poliamor?

Diálogo Surreal no Mundo Real:

- Mãe, no seu tempo já existia o poliamor?

- Poli o quê, menina?

- PO-LI-A-MOR, mãe.

- No meu tempo só existia a poliomelite. Descobriram uma nova doença, é?

- Não, mãe. Dãh! Poliamor é um tipo de relacionamento onde todo mundo ama todo mundo.

- Então é uma família?

- Não exatamente, porque aí seria incesto né, mãe?

- Como assim, filha de Deus? Do que exatamente estamos falando?

- Ai mãe, como você é retrógrada!

- Não fale assim com sua mãe, onde já se viu! E trate de explicar esse negócio de poliamor.

- É assim: uma relação com três ou mais pessoas, onde todo mundo se ama e vive feliz.

- Ahhhh, entendi. É igual a dona Flor e seus dois maridos, só que com mais maridos. A coisa mudou de nome é?

- Como assim, mãe? E quem é essa tal de dona Flor? Alguma amiga moderninha sua, é?

- Nossa, filha, como você é desinformada!

E esse tal poliamor?

Fui pega de surpresa com a pergunta de uma colega de trabalho: “Qual a sua opinião sobre o poliamor?” “Poli o quê?” “Poliamor, é o assunto do momento. Nunca ouviu falar?” Me senti um dinossauro, sério. E admiti isso. Mas como dar uma opinião sobre algo que não se conhece ou que não se ouviu falar ainda? Fazer o quê, além de utilizar a minha principal ferramenta de pesquisa: internet para que te quero?

Gente! E não é que existe mesmo o termo poliamor? Do inglês polyamory, literalmente significa “aquele que ama muitas pessoas”. Esclarecendo que nada tem a ver com o amor Ágape, aquele amor incondicional que Jesus teve e tem pela humanidade. Trata-se de Eros mesmo. É uma situação tal onde alguém ama outro e este, por sua vez, a um terceiro ou quarto, e todos eles estão conscientes e felizes com este relacionamento. Peraí, isso está parecendo “dona Flor e seus dois maridos”, só que com mais maridos. Os trios não são exatamente uma novidade na telinha, mas antes eram trios e não ligações geométricas.

Anota aí para não ser pego de surpresa: os adeptos do poliamor são chamados polipessoas ou pessoas poliamorosas.

As pessoas poliamorosas seguem o instinto natural do ser humano de se relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo, sem culpa, ciúmes ou peso na consciência. Parece até roteiro de comédia americana, mas trata-se de uma maneira diferente e bem real de amar (amar?), onde o princípio da monogamia não existe.

E pode? Pode! Tem até manual na internet de como praticar o poliamor.

Fazendo um resumo da ópera, primeiro você tem que compreender que é possível amar mais de uma pessoa simultaneamente e que o seu sentimento por uma não pode afetar o que você sente pela outra. Facinho! Depois tem que praticar o conceito de um relacionamento superaberto, sabendo que este é freqüentemente abominado e rechaçado pela sociedade.

E tem mais! Tem que aprender a não ser ciumento e a gerir o próprio tempo, de modo que cada um dos parceiros tenha o tempo suficiente junto a você para que todos fiquem felizes. Alguns adeptos do poliamor também são praticantes de swing.

Mas como em todo relacionamento tem que haver ética, você tem que estabelecer o seu próprio conjunto de diretrizes éticas, ser honesto, sincero e respeitar os seus parceiros, deixando claro se vai tratar todos de maneira igual ou se tem um parceiro preferido, se o relacionamento será aberto ou restrito ao número inicialmente estabelecido. É a chamada polifidelidade, que envolve múltiplas relações com contato sexual restrito a parceiros específicos do grupo.

Os acordos geométricos dependem do número de pessoas envolvidas e podem ser trios e quadras, onde um trio pode ter forma de V, de um triângulo ou de um T, entendeu? Mas a geometria da relação pode variar ao longo do tempo.

Os poliamoristas acreditam que uma só pessoa não é capaz de complementar a outra em todos os aspectos, como se não fôssemos seres plenos. Alguns homens assumem que o poliamor é o sentimento máximo masculino dividido entre algumas mulheres. Antes denominados “galinhas”, agora poliamorosos. Mas o que era restrito ao universo masculino, agora também faz parte do mundo das mulheres, afinal seria injustiça com quem lutou tanto por direitos iguais.

Seria a evolução do amor? Ou apenas uma maneira de justificar e tentar tornar aceitável para a sociedade algo que existe desde que o mundo é mundo, criando novos pseudovalores de comportamento social e sexual, vivendo em prol do próprio conceito de felicidade, satisfazendo todos os impulsos carnais sem a culpa que os adágios culturais e preceitos religiosos impõem?

Cá pra mim, não há nada de novo, é apenas uma antiga prática que, com o advento da internet e com gancho na moda do “eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”, ganhou novos adeptos e um nome bonitinho, se organizou em alguns países e já tem até dia comemorativo em Londres e em Nova York.

Mais um modismo que, provavelmente, virará um rótulo. Mas quem somos nós para julgarmos alguém? Como dizem por aí: cada um no seu quadrado! Se a felicidade está no caminho e não no destino, que sejam felizes os poliamorosos, mesmo correndo o risco de no fim da busca encontrarem apenas o vazio.

Nada contra nem a favor! Mas confesso que dá um frio na espinha ao pensar qual o conceito que meus bisnetos terão sobre casamento, família e sexo.

By Marlene Bastos

Comente