Convivência no casamento

Convivência no casamento

O casamento e a convivência entre marido e mulher são assuntos que nós nunca cansamos de discutir, seja para falar de nossas próprias atitudes ou as de nossos parceiros, que muitas vezes não nos agradam muito.

O Vila Dois foi procurar um especialista para tentar desvendar alguns mistérios sobre o tema. O psicanalista, autor de vários livros e artigos sobre masculinidade, paternidade e cultura contemporânea, Sócrates Nolasco, respondeu algumas perguntas sobre o tema. Confira:

1) É mais fácil para o homem que morava sozinho se adaptar às tarefas domésticas do dia-a-dia e ajudar a esposa do que para um homem que morava com a mãe e tinha sua refeição pronta todas as noites?

Incorporar tarefas domésticas como parte de uma rotina que faz da vida adulta é um aprendizado que começa na infância. Isto serve tanto para homens, quanto para mulheres. As pessoas se tornam adultas na medida em que aprendem a cuidar delas mesmas, bem como das escolhas que fizeram na vida, sejam elas profissionais ou afetivas.

Para um adulto, a casa representa um lugar no mundo onde ele descansa, se alimenta, mas sobretudo onde produz sonhos e elabora desejos. Ela pode ser expressão de intimidade, autonomia e de algo novo. Todavia, existem pessoas, mães e filhos, que desejam manter tudo como está, pesando que assim não correrão riscos.

Para tanto, eternizarão uma "brincadeira" apreciada na infância: a de mãe e filho(a).

2) Os homens estão mais participativos nas tarefas domésticas? Alguns ainda se sentem incomodados por acreditar que essas sejam funções femininas? Por quê?

O incomodo se caracteriza mais por serem tarefas que não tem fim, ou são repetitivas e pouco criativas, do que por ser de mulher. Alguns homens dizem que existe sempre algo melhor para fazer do que executar uma rotina doméstica.

Os homens de hoje são mais participativos quanto às rotinas da casa do que foram seus pais. Isso pode não estar à altura do que deseja uma mulher, pois elas se sentem sobrecarregadas.

Contudo, a carga que elas sentem por conta da dupla jornada na maioria das vezes atribuída a

pequena participação dos homens, também diz respeito ao modelo social que atravessa os casais de hoje, exigindo muito dos mesmos. Com isto, desenvolveu-se a crença de que fazendo mais se terá segurança no emprego, na família e na educação dos filhos. Isto é impossível!

No Brasil, os meninos participam muito pouco das tarefas domésticas, e atualmente as meninas também. Podemos imaginar como será a casa de ambos quando crescerem se até lá não existirem as empregadas domésticas.

3) Algumas vezes a mulher, por ter mais familiaridade com a dinâmica da casa assume o papel de "mandona", dá ordens todo momento de como ele deve cuidar do espaço que é comum aos dois. Essa atitude está correta?

O poder sempre interessou a homens e mulheres. Não temos dúvida disso se observarmos a cena publica. A questão é que ela também se coloca no âmbito privado. Durante a história, a casa pertenceu a uma mulher. Tudo que nela existe ficou associado ao feminino. Arrumar, lavar, cozer, enfim isso é uma demarcação de território e espaço.

Acreditou-se até que há uma identidade, um jeito que é próprio de mulher associado a ela. Certa vez, um homem me contou uma historia sobre sua sogra. Ela percebendo que ele cozinhava bem, sabia cuidar da casa, vestir e pentear os filhos, lhe disse:

- Você deveria ter nascido mulher!

Quando há xingamentos ouvimos: "seu filho da mãe!" Do mesmo modo que o filho é uma posse, um bem que coube a mulher na partilha do mundo, tudo o que está na cena publica pertence aos homens. Muitos juizes e juizas ainda entendem as coisas deste modo quando dão a guarda às mães.

Essa visão de mundo faz parte de um conjunto de crenças que limita e empobrece a experiência humana.

4) Por que quase nunca parte do homem a iniciativa de ajudar nas tarefas do lar?

Primeiramente, porque nunca se esperou isso de um homem. As famílias não educam os meninos acreditando que isso tenha um valor positivo para eles. Portanto, eles não se identificarão com isso.

De um homem era exigido que ele protegesse, provesse a família existisse. Disseram para eles que se desempenhassem bem seu papel teriam a recompensa de serem eternamente amados. Mas esse prêmio nunca chegou. E os homens foram atrás dele em outro lugar. Amantes, amigos de bar, trabalho, era importante acreditar que seria possível encontrá-lo, pois junto ao reconhecimento estaria a estima de seu valor. O lar pertence à mulher, não há quem diga: "mãe é mãe!" E o pai? A cultura precisa inventar um outro modelo de família para ser divulgado e valorizado além da cena publicitária.

5) Alguns homens brincam dizendo que casamento é sinônimo de fim do sexo. É verdade? Por que alguns pensam assim?

No casamento o sexo pode coroar uma relação de intimidade. Essa conexão está presente em diferentes histórias que eu apresento em meu ultimo livro: O Primeiro Sexo.

O sexo é subutilizado quando empregado para aplacar angústias, conter medos, confirmar identidades, reparar sofrimentos ou promover vinganças. Na literatura ele já esteve associado à traição, morte, guerras, e ao impossível. Nos dias de hoje, é grande o interesse que se tem por ele, sendo difícil saber se ele nos liberta ou nos escraviza?

No casamento, quando um homem se sente amado, querido e valorizado, o sexo com sua mulher melhorará, pois neste contexto ele gera alegrias. Do contrário, se transforma em uma loteria, cuja função é tentar encontrar o amor que falta.

Posto desta forma, quanto mais sexo eles fizerem, maiores serão suas chances serem reconhecidos. Mas, na medida em que isso não ocorre o casamento se transformou no evento que extinguirá o sexo, não pelo sexo em si, mas sobretudo, porque o casamento não lhes trouxe o amor.

Há homens e mulheres que não sabem o que é amar, e possivelmente viverão sem adquirir a sabedoria necessária para tal. Isto porque só conhecem o valor do amor aqueles que se sentem bem amados. O sexo mecânico ficou como um prêmio de consolação para os que são acompanhados freqüentemente pelo sentimento de perda do amor.

6) O que muda na cabeça do homem ao casar? Depois que casa, do que ele sente mais falta?

Possivelmente sente falta do que esperava encontrar. Quem não está casado consigo mesmo dificilmente conseguirá se envolver nessa empreitada. O casamento sempre foi um desafio para homens e mulheres. A humanidade precisou dele para avançar e para isso não poupou esforços para cercá-lo com um cinturão moral e religioso. Na medida que esse cinturão foi retirado podemos perceber que dificuldades são essas, elas não são um privilegio de nosso tempo.

A perda de fé no casamento tem mais haver com aquilo que ele propicia ao casal enxergar: suas limitações, seus desafios e frustrações. O casamento é apenas uma experiência que para ser satisfatório dependerá do que cada um traz na bagagem pessoal.

A mulher chega no casamento pensando que agora ela terá um novo começo para sua vida. Para um homem ele representa a conclusão de um caminho.


O sentimento de perda pode estar associado às expectativas impossíveis de serem realizadas, as incapacidades de se lidar com problemas da vida e sobretudo, pela falta de certeza de que se é verdadeiramente amado. No casamento, só o sexo pode conter a intensidade do amor.

Por Larissa Alvarez

Comente