Comédias românticas: realidade ou ficção?

Comédias românticas realidade ou ficção

Filme Meia-Noite em Paris. Foto/Divulgação

Nas telinhas ou telonas as histórias de amor quase sempre acabam bem. Os encontros casuais, as juras de amor, os conflitos e os finais felizes arrancam suspiros das mulheres mais sentimentais. Até aí, tudo bem. Só que pesquisadores da Universidade de Heriot-Watt, na Escócia, constataram que quem assiste a filmes românticos em demasia pode criar expectativas incoerentes em relação aos amores da vida real.

O grupo analisou 40 sucessos do gênero e apontou os elementos nomeados como perigosos: a instantaneidade da paixão, o destino que sempre se encarrega de unir os casais apaixonados, a existência de um par perfeito para cada pessoa e a forma simples como traições e mancadas são perdoadas.

Feito isso, os pesquisadores selecionaram dois grupos de voluntários: um assistiu a um filme romântico e outro a um drama de David Lynch. Após a sessão, todos responderam a um questionário. As pessoas que conferiram a comédia romântica apontaram conceitos românticos muito mais fortes e ilusórios do que aqueles que viram o drama.

Ou seja, para os pesquisadores, o grupo dos românticos estaria sujeito a grandes decepções. O terapeuta Sérgio Savian concorda com isso e afirma que o risco é iminente não só com as comédias românticas, mas com a ficção romântica em geral, quer seja nos filmes, na TV, nos livros ou nas músicas.

"Influenciadas pela comunicação de massa, as pessoas acabam idealizando muito o amor e quando se deparam com a vida real, com todas as suas imperfeições, não conseguem lidar bem com ela. Tornam-se muito exigentes, e por isso, sozinhas. E isto não é nada engraçado", diz. "O que mais vejo são pessoas iniciarem uma relação como se fosse um filme, mas com o tempo perdem o ponto. O amor vai se desgastando, perdendo a poesia, a graça e morrendo na praia, mais parecendo uma tragédia", lamenta.

Sérgio acredita que os relacionamentos só dão certo quando a pessoa se livra dos conceitos equivocados que possui sobre o amor. Uma vida a dois satisfatória é composta por afinidades, para fomentar a aproximação, e diferenças, para que um aprenda com o outro. "Você pode sim encontrar a pessoa certa, mas se não tiver habilidade para se relacionar, colocará tudo a perder. O amor não é questão de sorte ou azar, mas precisa ser reconhecido e nutrido com sabedoria por cada um", explica.

Silvia pode dizer que viveu uma história de amor que costuma acontecer só nos filmes. Para comemorar seu aniversário de 40 anos, ela, que estava divorciada, resolveu de última hora se dar uma viagem para Paris. Ao sair de um show do cantor Elton John, em outubro de 2009, comprou um crepe nos arredores da Praça da Bastilha. Coincidência, ou não, um argelino de 34 anos fazia o mesmo depois de um longo dia de trabalho. Ele morava na cidade desde os 25 anos e desejava se casar com uma mulher nos padrões ocidentais.

"Começamos a conversar sobre o crepe e logo rolou um clima. Depois ele me convidou para tomar um café no bar. Nós nos beijamos, passamos a noite juntos e nunca mais nos separamos", conta. "Eu tinha passagens de trem compradas e reservas de hotel para o sul da França. Rasguei tudo e fiquei mais 10 dias com ele em Paris". Silvia voltou para o Brasil apaixonada, mas achando que seria mais uma história de viagem.

Mas não foi. Os dois trocavam telefonemas todos os dias. Ela pelo Skype e ele pelo telefone. E detalhe: o argelino ligava bem rapidinho pela manhã para dar bom dia. "Quatro meses depois voltei para a França e ele me pediu em casamento. Retornei novamente para o Brasil, certa de que ele viria para cá em julho de 2010 para que nos casássemos", lembra.

"Porém, ele, solteiro, com um passaporte do norte da África e sem comprar um pacote turístico, teve seu visto negado", lembra Silvia. Diante disso e de compromissos de trabalho de ambos, adiaram o encontro presencial para dezembro de 2010.

Ela foi para a França e depois para a Argélia, onde passou dois meses e conheceu toda a família do noivo (quatro irmãos e três irmãs), que morava em Argel e era da kabyle, uma minoria árabe que fala um dialeto próprio. A papelada para a união demorou cerca de 50 dias e foi toda escrita em árabe.

"Nós nos casamos nas montanhas da Kabilia, num pequeno vilarejo, com um frio de neve. No dia seguinte, eu registrei o casamento na Embaixada e retornei ao Brasil, já casada", conta. "Pedimos, nesse mesmo dia, um visto para ele vir ao Brasil, agora como meu marido. Isso aconteceu em maio de 2011, pondo fim a um ano e meio de espera".

Sérgio Savian defende que o amor não é racional, ele traz consigo boas doses de profundidade e coragem. Assim, somente quem tem um belo roteiro de vida e sabe lidar com a aventura e o desconhecido, sem muitas regras, está apto para vivê-lo. "O amor é uma experiência mística, é sinônimo de liberdade. Felizes os poucos que conseguem amar com os pés no chão, que não têm medo do envolvimento, mas que sabem trabalhar a relação diante das dificuldades", diz.


Silvia garante que sempre achou que daria certo e, mesmo com a preocupação da família e dos amigos, decidiu investir. "Pensei: ‘nunca me senti tão feliz com alguém, vou ver o que é isso’", lembra. "Foi a melhor decisão da minha vida nos últimos tempos. Estamos construindo uma história permeada pelas culturas brasileira, francesa e kabyle. Muitos gostos, sons, músicas e paladares para a gente descobrir... agora juntos!"

Por Juliana Falcão (MBPress)

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