Casal nada consumista

Casal nada consumista

Foto/Site do Casal (http://diafanes.com.br/taminogruber/serra/)

Você já se imaginou vivendo sem aquele seu luxo preferido - sem carro ou micro-ondas? Já parou e pensou bem antes de comprar um produto supérfluo num supermercado? O estilo de vida moderno, cada vez mais ligado ao consumo descontrolado e à consequente destruição da natureza, levou um jovem casal a tentar viver de maneira diferente. Lúcio Tamino e Juliana Morari resolveram mudar de um local urbanizado da cidade de São Paulo para a Serra da Cantareira.

"São ideias que foram tomando forma naturalmente, conforme fomos percebendo melhor como funciona o mundo, tanto na escala humana quanto a da natureza. Quanto mais sabemos sobre as sociedades humanas, de tudo que foi e é feito em nome do progresso, mais desejamos nos voltar para a natureza, pois ao observá-la vemos outros padrões, outras manifestações da vida, variações de nós mesmos e do mundo onde nos desenvolvemos como espécie", diz Lúcio, que é artista plástico.

A experiência já tem dois anos, e o casal acredita que pode durar muito mais, basta que ambos continuem querendo e tentando. "Quanto menos gastamos e consumimos, menos precisamos ganhar, ou seja, ‘trabalhar’, nos referindo ao trabalho que consome os nossos dias e nossas vidas, que nos impede de ter uma vida mais plena", afirma o artista plástico. É de suas criações que vem a provisão para gastos com a casa e alimentação. Juliana ocupa-se com afazeres domésticos, como o preparo de alimentos.

Alguns hábitos que já eram comuns a Juliana e Lúcio mesmo antes de se mudarem contribuíram para a rápida adaptação a um estilo de vida mais natural. Tanto que os dois conseguiram até aposentar a geladeira. "A geladeira não é tão necessária como se pensa e muita gente vive sem ela. Grãos, sementes e castanhas duram bastante, farinhas também não estragam... legumes e frutas também podem durar, é só guardá-los em lugares frescos, ou comprá-los verdes e esperar que amadureçam naturalmente ou, melhor ainda, tentar plantá-los, pois aí estarão sempre frescos. Já tínhamos uma alimentação vegetariana, o que faz com que não compremos nenhum tipo de carne e nem outros produtos de origem animal como o leite industrializado, por isso também não precisamos da geladeira", explica Lúcio.

Outro eletrodoméstico que não pode ser encontrado na residência do casal anticonsumista é a televisão. E o melhor é que, como conta o artista plástico, isso não os priva de assistir seus programas favoritos. "A televisão para nós também é totalmente descartável, não há quase nada de bom nela, só há alienação e perda de tempo numa programação na qual não escolhemos o conteúdo. Gostamos de filmes e documentários, mas eles podem ser acessados de outras formas... nós, por exemplo, ainda temos um computador".

Lúcio não se arrepende de ter largado uma vida mais urbana. Ele acredita que há muitos benefícios em ser menos consumista. "Um dos maiores benefícios é poder ver o mundo de forma um pouco mais independente da visão predominante, desfazer-se um pouco da cultura que carregamos por toda a vida, chegar a conclusões nós mesmos, com base no que vemos e vivemos. É raro incentivarem a observação e o pensar independente, assim como o respeito por opiniões diferentes das da maioria, e é isso que estamos buscando e nos sentimos bem em concretizar".

Ele conta que, conforme vai descobrindo a natureza, o casal fica menos dependente de produtos artificiais e industrializados. "Temos algumas árvores frutíferas, estamos plantando outras e tentamos manter uma horta. Estamos aprendendo cada vez mais sobre as plantas, o que possibilita que identifiquemos plantas consideradas ‘daninhas’ que na verdade têm potenciais medicinais ou alimentícios. Isso, aos poucos, vai criando situações em que não dependemos tanto da farmácia ou do supermercado".

O artista plástico deu um alerta para quem consome sem consciência. "A demanda por bens de consumo cria uma enorme demanda de matéria-prima, juntamente com os altos custos de produção e transporte. Cada um de nós é cúmplice da destruição causada pelo seu consumo, e achamos que todos nós devemos nos questionar em que mundo gostaríamos de viver, pois sofremos quando vemos tanta destruição em nome de coisas cada vez mais fúteis e supérfluas".


Lúcio e Juliana possuem um site em que relatam suas experiências. Se você ficou curiosa, basta acessar: http://diafanes.com.br/taminogruber/serra/.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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