Bonito mesmo é não ser ordinário

Dá pra tratá-la com respeito e sinceridade e, ao mesmo tempo, saber ser “malvado” em momentos certos...
ricardo coiro cafamântico

Você pode até ser ordinário...no momento certo! Foto - Istock/gpointstudio

Irmão, eu não ousaria afirmar que o seu abdômen “tanquinho” é feio. Pois não é, definitivamente. Além do mais,seria muita dor de cotovelo da minha parte, ainda mais agora, que já não tenho mais espinhas na cara e que já perdi o medo adolescente – e preconceituoso - de admitir a beleza de outros homens. E digo mais: se conquistar abdomens rasgados não exigisse tanta disciplina, batata-doce e dias longe da coxinha, eu certamente teria um(do verdadeiro, não como aquele 2D que possuo impresso em meu avental de churrasco).


Ah, e também gostaria de ombros mais largos e de bíceps um pouco maiores, confesso. Gostaria, mas somente se pudesse pedi-los “Pra viagem, por favor!”, junto com molho barbecue, mais guardanapo e CPF na nota. Contudo, não dá, já aceitei os fatos. Então, resta-me, apenas, aprender a me contentar com um corpo que é mais confortável do que o seu coxão duro, indubitavelmente, mas que não gera tantos torcicolos e suspiros quanto ele.

Tá feliz agora? Ou quer mais uma chuva de confetes? Pois saiba que eu não lhe darei, pode desistir. Não lhe darei porque o que você precisa, de verdade, é de bons conselhos, não de mais Shiatsuem seu ego inchado. E não estou falando de conselhos para evitar o ganho de gordura abdominal em festas de fim de ano, não. Nem de dicas para fazer bolo de Whey Protein de caneca. Nada disso. Refiro-me a conselhos ainda mais valiosos, como: cuidado com o poste quando estiver alienado postando selfies. E... Pare de achar que é bonito ser ordinário, no sentido figurado e ruim da palavra (aquele que é sinônimo de mau-caráter e mal-educado). Pois isso é muito feio, cara. É zilhões de vezes mais feio do que a pança de um comedor compulsivo de provolone à milanesa.

Eu sei que você se sente bonitão enquanto se gaba, aos seus amigos, das suas canalhices calculadas: cercas que pula e mentiras que cospe, principalmente, porque almeja ser visto como “El Comedor” nos bares em que frequenta. E sei que eles – seus camaradas – o aplaudem nas vezes em que você se acha inteligente por enganar a mulherada;por comê-las e evaporar, logo depois de prometer amor eterno, fidelidade absoluta e que rolará o combo jantar-cineminha-tesão no próximo domingo. Eu sei, eu sei... Mas volto a dizer: é feio, cara. Ser ordinário, assim como o mullet e a calça capri, felizmente, não está mais na moda (nem sei como um dia esteve, aliás). Não sei se você estava em coma quando essa tendência escrota caiu, masa onda agora é ser honesto, é ter valor (não confunda “valor” com “preço”, por favor).

É claro que seu tanquinho arrecadará olhares na praia. É óbvio. Porém, se quer encantar de verdade – e atrair admiração profunda além de elogios rasos e carnais -, desapegue-se dos conselhos bundões de gente que acha bonito agir de maneira feia, e seja gente boa, honesto e educado (o que é totalmente diferente de ser trouxa ou pau-mandado, não confunda as bolas).

Eu sei que lhe disseram que “o bonzinho só se fode” e que “elas gostam mesmo é dos bad boys”. Mas isso é mito. Na verdade, não passa de uma grande confusão, de algo que vem sendo interpretado de maneira muito errada desde... Explico: dos bad boys elas gostam da pegada, da imprevisibilidade e do mistério, o que não quer dizer que curtem a falta de caráter, de educação e de princípios que muitos deles ostentam ridiculamente. E quem se fode, de fato, não é o bonzinho, e sim o cara que, de tanto que força a barra da bondade – até mesmo em horas em que ela é dispensável, como no ato sexual -, pela namorada começa a ser visto como um labrador adestrado, o que é horrível para o tesão (Ou você tem tesão por labradores adestrados?) Quem se fode, de verdade, é o cidadão que, até mesmo no sexo, trata o mulher como se ela fosse um bibelô frágil, e, em vez de tapas e puxões, fala: “Dá licença, vou remover um cabelo que caiu em sua testa”. Quem se fode, mesmo, é o ser que, quando a moça está com as unhas recém-pintadas, diz: “Quer que eu faça uma trança em seu cabelinho, minha princesinha?” Isso não é bondade, é “bundade”; é confundir “ser bom” com “nunca discordar ou questionar”; é se esforçar para que ela comece a lhe enxergar como um amigão assexuado e, consequentemente, pare de sentir cosquinhas de adulto por você. Entendeu?

Dá pra tratá-la com respeito e sinceridade e, ao mesmo tempo, saber ser “malvado” em momentos certos – quando elas estão mais pra mordida do que pra colo, por exemplo -, tomando sempre cuidado para não agir como se fosse o pai (“Amorzinho, está gripadinha ainda?”) ou escravo (“Quer que eu leve a sua bolsa? E agora?”) dela. 

Ó, arrisco dizer que bonito mesmo é o cara que sabe o momento exato de ser ordinário, no sentido mais obsceno da palavra, e que, mesmo assim, nunca fere o que há de mais importante em uma relação: o respeito. E se esse cara ainda tiver um tanquinho como o seu... Pobres de nós, pançudinhos que sempre dizem “Sim!” depois de “Dobro de queijo, senhor?”.

Por Ricardo Coiro

Ricardo Coiro - Vive entre o soco e o sopro. Morre de medo do morno e odeia caminhar em cima do muro. Acha que sensibilidade é coisa de macho e que estupidez é atitude de frouxo. Nunca recusou um temaki ou um café. Peca todo dia. Autor do livro Confissões de um Cafamântico.

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