Antes de ser sua namorada, sou sua parceira!

Este conto é para as parças genuínas - aquelas com anel de compromisso no dedo, sabe?
ricardo coiro conto namorada

iStock/teksomolika

Não sou gostosa como a Pugliesi nem gata como a Megan Fox. Não requebro como a Anitta nem sou tão engraçada como o seu tio mineiro (aquele que matou um cara engasgado num churrasco). Não sou culta como a Marília Gabriela nem cozinho divinamente bem como a sua avó made in Italy. Não vou mentir. Aliás, mesmo se quisesse – e ganhasse um empurrãozinho do Photoshop e outro da MAC -, eu não conseguiria lhe enganar. Mas uma coisa eu posso lhe afirmar com imensa convicção, sem desviar o olhar ou gaguejar: antes mesmo de ser sua namorada, eu sou sua parça, de verdade e pro que der e vier. E isso, meu bem, não está à venda no Mercado Livre nem distribuindo “matches” no Tinder. Está em extinção, isso sim!

Se você está pensando em me trocar por coxas mais grossas ou por um bumbum mais empinado, pense muito bem. Tome um banho bem gelado e pense na fria irreversível em que poderá se meter, falo sério. Porque parceira como eu, modéstia à parte, você não achará assim tão fácil. Não mesmo. Encontrará, em qualquer esquina ou fila de balada, uma mulher disposta a encher a cara de champanhe com você,porém, na manhã seguinte, quando ela sair correndo porque você começou a cuspir as tripas e reclamar que o mundo está rodando veloz, você imediatamente perceberá a cagada estratosférica que fez. E sentirá uma puta falta da minha canja com Sazón fabricado no corazón, do Engov e do copo de água pousando gentilmente sobre seu criado-mudo e da minha voz estrategicamente despreocupada dizendo: “Não, você não vai morrer, amor. Não agora e nem de pinga. Pensando bem, de pinga, talvez. Mas não já, prometo!”.

Agora que está batendo as metas, ganhando bem e cheio de moral com o big boss da empresa em que trabalha, encontrará mil e uma mulheres dispostas a desfrutar, sorridentes e ao seu lado, do fruto que brota do seu suor. Contudo, se por culpa da crise seu chefe lhe der uma bicuda na bunda - e só puder pagar um terço das contas que chegam mensalmente a você -, descobrirá, da mais dolorosa maneira,a diferença entre “gente que ama em qualquer circunstância” e “gente que ama só por causa de uma circunstância específica”. Ou acha que qualquer mulher faria o que eu fiz quando você ficou mais de um ano desempregado? Algumas teriam feito o mesmo, eu sei. Mas muitas teriam lhe deixado quando o carro teve que dar lugar ao busão, os restaurantes precisaram ser cortados por período indeterminado e os Ovos de Páscoa foram trocados por Kinder Ovos. Mas pra mim, sinceramente, não fez muita diferença. É claro que prefiro andar de carro e que amo comer fora, mas essas coisas são apenas míseros detalhes perto do que me motiva a estar com você: o amor. E é por ele, pelo amor incondicional que sinto por você – e que levo a onde vou! -, que visto a camisa de parceira diariamente, na alegria e na tristeza, na sua euforia etílica e no seu “ranzinzismo” matinal, quando dividimos o frango seco da marmita e quando desfrutamos de qualquer coisa trufada e com notas de limão siciliano.

Tô com você, amor, não se esqueça disso. Não é fogo de palha, amor de verão ou parasitismo disfarçado de love, não! Tô fechadíssima contigo. E mais do que determinada a lhe mostrar – através de atitudes diárias e nada teatrais– que a nossa parceria tem todos os motivos do mundo para continuar firme e forte, por muito tempo. Não estou com você porque acabou a pilha do meu vibrador, porque preciso de figurantes para postar fotos comendo fondue em Monte Verde ou porque tenho medo da solidão, não! Muito longe disso. Estou com você porque, além de meu namorado, encontrei em você um parceiro – e, obviamente, alguém que me motiva a ser parceirona -; é o homem a quem eu quero emprestar, sempre que necessário, minha escova de dente, meu protetor solar e carregador de celular. Emprestar, isso mesmo! Pois a chave do cômodo mais nobre do meu coração eu já lhe dei, não percebeu? Pois perceba, por favor. E, se puder, note também que temos uma parceria, de fato, independente de como chamam por aí. E parceria, meu bem, vale mais do que qualquer aliança de brilhantes, não sai de moda com o passar dos anos e não enruga junto com a pele. Entendeu, parça? Ou quer que eu desenhe? Não precisa, né? Então bora lá no Bar Azul tomar um chope pra comemorar o que temos - coisa que, apesar de não curar as ressacas e indigestões da vida, faz com que suportá-las fique bem mais possível.

Amo você, parça.

Por Ricardo Coiro

Ricardo Coiro - Vive entre o soco e o sopro. Morre de medo do morno e odeia caminhar em cima do muro. Acha que sensibilidade é coisa de macho e que estupidez é atitude de frouxo. Nunca recusou um temaki ou um café. Peca todo dia. Autor do livro Confissões de um Cafamântico.

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