Amor como uma droga

Amor que vira uma droga

Amar passa a ser um tormento quando a mulher enxerga o homem como a razão de sua vida. Tomar posse do outro, pegar o celular do parceiro para checar chamadas e mensagens e cheirar todas as roupas dele são atitudes que, aos poucos, são capazes de deixar qualquer pessoa apaixonada completamente maluca. E com o tempo, o amor vira uma droga. É como se só a presença do outro fosse capaz de fomentar nessa mulher a vontade de viver.

Felizmente, essas mulheres que amam de maneira desenfreada encontram dentro e fora do Brasil grupos de apoio, que buscam resgatar em cada uma delas a autoestima e a independência. Um deles é o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas). Maria das Neves, de 48 anos, fundou uma unidade na Paraíba há 11 anos, depois de ela própria se ver mergulhada na dependência de amor.

"Fui casada durante 15 anos com um homem que era dependente químico. Eu me anulava para cuidar dele, achando que ele ia mudar. Mas percebi que isso não existe. Ninguém muda ninguém", afirma. "Cinco anos depois de estar casada com ele, resolvi abrir a unidade da MADA aqui na região. O grupo começou com três mulheres. Antes eu já frequentava outro grupo, o NA (Neuróticas Anônimas)", conta.

Segundo Dra. Eglacy Sophia, psicóloga clínica especialista em Dependências e Compulsões em geral, Amor Patológico, Relacionamento Amoroso, Sexualidade Humana e Psicodrama, a mulher que ama demais cuida do parceiro além do que gostaria, deixando de lado coisas interessantes que costumava fazer antes de iniciar o relacionamento. "Ela tem consciência de que está extrapolando, mas não consegue controlar ou melhorar o comportamento".

Dra. Eglacy conta que, segundo estudos, a mulher repete com seus parceiros o modelo de relação que teve com sua mãe quando bebê. É o que se chama de apego ansioso-ambivalente. "Esse fenômeno acontece quando a mãe passa segurança para a criança, é presente e afetiva e em outras ameaça abandonar, rejeita e até agride. A pessoa cresce com carência interna de afeto e passa a ficar ansiosa demais, a ter medo de perder o amado, de não poder contar mais com ele", explica.

Mulheres que amam demais costumam se interessar por homens que lhe permitam repetir esse modelo, que lhe gere sofrimento de alguma forma. "Segundo estudos de casos, elas não se sentem atraídas por pessoas que são afetivas e próximas. Elas preferem pessoas que são mais distantes, que têm vínculos com atividades externas, dependentes de drogas ou que são carentes, já esse perfil de parceira é muito cuidadora".

A psicóloga lembra ainda que esse perfil de mulher têm um nível cultural elevado, mas não é tão bem sucedida no trabalho como deveria. Isso porque ela passa o dia procurando pelo parceiro, querendo saber onde ele está e o que está fazendo. "Algumas chegam a largar a própria profissão para ajudar o parceiro e ficar mais próximas dele", diz Dra. Eglacy.

Atualmente o MADA realiza 45 reuniões semanais em 14 estados brasileiros. No exterior existem unidades em Portugal e Venezuela. "Quando você reconhece que se tornou dependente de alguém, que se anulou, fica mais fácil reverter a situação. No MADA, você escuta outras pessoas que têm o mesmo problema que o seu. Há uma troca de experiências negativas e positivas e uma mulher vai ajudando a outra", conta Maria das Neves.

De acordo com a coordenadora do grupo, o difícil não é entrar no MADA, mas permanecer nele. Para alcançar a cura desejada, a mulher não pode faltar ao tratamento, para evitar recaídas. "Outro passo bastante complicado é a mulher aceitar que precisa de ajuda. Ela sempre acha que é a mulher maravilha, que está certa e não precisa mudar de atitude, que não vive em função de marido e filhos", diz. Dra. Eglacy completa: "Geralmente, a mulher não é pró-ativa e só procura ajuda quando já perdeu o parceiro ou está a ponto de perder."

No MADA, o tratamento consiste na leitura de uma série de livros e no cumprimento de 12 passos para a mulher buscar a cura para o problema do excesso de amor e de 12 tradições para que a participante possa suportar conviver no grupo e manter a unidade. "A dependência de amor é tratada como uma doença. Você se deixa de lado para cuidar do outro. E no momento em que você se dá conta do quanto está iludida, começa a querer se livrar do problema", diz Maria das Neves.

Já no Hospital das Clínicas o tratamento é feito em grupos que reúnem de oito a 10 pessoas. "Nas sessões são trabalhados os sintomas do problema, analisadas as relações antigas e atuais dessas mulheres de forma que os medos e inseguranças possam ser curados. Assim, elas aprendem a se relacionar de maneira mais serena e saudável", diz Dra. Eglacy. São feitas de 16 a 20 sessões com duração de 1h30 cada.

Não é possível mensurar o tempo que a mulher leva para entender que essa dependência não é positiva. Há frequentadoras do MADA que em poucas semanas já tomam uma atitude. Outras demoram um pouco mais. Maria das Neves, por exemplo, precisou de cinco anos para realmente entender que precisava mudar de vida.

"Procurar ajuda de grupos como o MADA é como aprender a olhar para si própria, a deixar o outro viver a vida dele em paz. Quando a mulher passa a dar mais valor à própria vida, a estudar e a exercer outras atividades, se dá conta do quanto era escrava desse amor e se esforça para não voltar a ter a vida de antes", afirma Maria das Neves, que hoje é viúva, voltou a trabalhar e está cursando faculdade de Ciência da Religião.


Dra. Eeglacy faz questão de lembrar que nem sempre a mulher precisa desembolsar quantias exorbitantes para buscar ajuda. O tratamento no Hospital das Clínicas, por exemplo, é gratuito e atende homens e mulheres. "Basta ligar para (11) 3069-7805 e marcar um horário. A pessoa passa por duas sessões de triagem antes de iniciar o tratamento. Além de psicoterapia, os pacientes recebem atendimento médico, pois aliado ao amor em excesso existem outras patologias, como depressão e ansiedade", alerta.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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