A química, esse conteúdo essencial

   

   Quando na época do colégio, eu era uma negação nata em química. Incompreendia cátions, ânions, prótons e elétrons. Tinha urticária da tabela periódica, das ligações químicas todas e das equações e balanceamentos que me enlouqueciam em véspera de prova e me faziam uma turista num mundo habitado por modelos atômicos, geometria molecular, Lavoisier e misturas - a prática, aliás, era a única parte em que me divertia um pouco; voltava então a ser uma pequena garotinha que gostava de misturar todos os conteúdos do banheiro para ver o que acontecia, quando não infernizava as empregadas na cozinha. Era recuperação todo final de trimestre e uma dor de cabeça a mais ser tão inadaptável ao mundo desta material ciência.

   Na prática, porém, descobri que a química tem nada ou pouco demais de matéria exata. Explico. Quando dispostos a fazer exames com questões tenebrosas e de dificuldade muito maior que os exercícios simplinhos ensinados em aula, se usássemos as fórmulas corretas e a noção de matemática fosse boa, é bem possível que o resultado da questão seja inquestionável. Corretíssimo. Em relação a pessoas, contudo, e se tratando de toque, pele, sensações e afinidades, é raro que duas pessoas encaixem de forma ímpar e certeira não apenas no plano físico, mas também no das ideias, gostos, percepções de mundo e ideias. Se acontece, é provável vire algo a mais e com o sentimento vivo, um relacionamento se consolide - esse outro achado dos tempos modernos, também cada vez mais escassos. 

   Nelson Rodrigues foi célebre em muitos momentos de sua carreira, mas ao escrever que sem paixão não dá nem para chupar um picolé, frase que para mim descreve o tesão da vida e suas facetas, acertou em cheio. Sem química também não dá pra se ir muito adiante. E é fácil ver o que poderia ser um explosão de possibilidades se transformar em ou amizade, ou sexo casual. Com a pessoa ideal, aquela que consegue discutir cinema no mesmo patamar, possui gosto musical semelhante, torce pro mesmo time e entende suas ironias, pensamos: opa, isso poderia ser algo mais. Poderia, porque mesmo a pessoa apaixonada e tentando de tudo, se não existe um bom encaixe e nada faz vibrar na intimidade (pelo contrário, a vontade é fugir correndo), é sentir se consolidar uma amizade que talvez nem dure, já que nem sempre o outro lado compreende.

   A química, essa matéria-prima, nem parece tanto, mas é primordial. Existe explicação lógica para a falta ou o excesso de combustão entre dois corpos? Talvez a ciência explique. Especialistas dizem que o som da voz e os cheiros são os responsáveis por riscar o fósforo de uma ligação simultânea com todos os cinco sentidos. O incêndio entre duas pessoas que se pegam enlouquecidamente enquanto horas parecem minutos e deixam queimar locais públicos, a junção exata das posições todas quando numa mesma cama, a atração imediata entre criaturas tão diferentes. Ainda que a criatura seja gramaticalmente analfabeta, possua péssimas referências musicais, se vista com peças que abominamos: se traz à tona a intensidade impressa nos capítulos da vida, entra pro nosso clube. Mesmo que apenas para fins de diversão, inclusive para passar umas horas e carregar o mundo mais leve depois. Com ela, adrenalina e vontade, aqui e agora. Sem, não dá nem pra chupar um picolé. Que dirá outras coisas.

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