Rede social une homens e mulheres interessados apenas em ter filhos

Modamily  para quem quer ter filhos

Foto: Reprodução

Há mulheres que postergam o desejo de serem mães porque aguardam ansiosamente o cara certo e com perfil de bom pai. Outras já não fazem questão do casamento ou do relacionamento e partem direto para a produção independente, apesar de acharem oneroso cuidar de um filho sozinhas e não ter por perto a figura paterna para ajudar na formação da criança.

E já que o mundo anda cada vez mais moderno e as pessoas cada vez mais independentes, por que não montar uma rede social com gente disposta a gerar uma criança e só, sem vínculo afetivo, como se fosse uma parceria, uma sociedade? Pois é exatamente isso que acontece nos Estados Unidos.

Em janeiro deste ano foi criada a Modamily, uma rede social, com sede em Nova York, que recebe cadastros de homens e mulheres que gostariam de gerar uma criança pulando a fase da paquera, namoro e casamento. No começo de fevereiro o site já contabilizava 20 mil cadastrados, sendo que 70% dos visitantes eram homens entre 40 e 50 anos.

O cadastro é gratuito. Além dos dados típicos (tipo físico, idade, religião), o interessado especifica quantos filhos gostaria de ter, como é sua família e quais pessoas farão parte ativamente da vida da criança. Ainda é possível colocar fotos e um vídeo de apresentação. A partir daí, o usuário tem a liberdade de receber ou enviar mensagens para seus candidatos a co-pai e fazer encontros para definir sua escolha.

O idealizador da rede social, o ex-agente de talentos de Hollywood, Ivan Fatovic, define a co-parentalidade como uma forma de compartilhar uma criança entre adultos amorosos, comprometidos e financeiramente seguros. Em entrevista à rede ABC, ele defende que por meio dos cadastros será possível achar duas pessoas que consigam colocar a criança em primeiro lugar.

"Se (o amor e o casamento) não acontecem, as pessoas acabam se casando com alguém por quem não é louco e se divorcia em poucos anos. Em dois dos três divórcios, uma criança está envolvida. E quando a mãe e o pai não se dão bem, vão brigar entre si (e se esquecem do filho)".

A maneira como a criança será fecundada (relação sexual, inseminação) é decidida pela dupla. Na opinião do psicólogo Victor Dalla Nora Araujo, na teoria uma família é criada a partir do amor, mas na prática não é sempre assim. "É possível criar um filho em tais condições, desde que haja afeto, instrução e preservação da autonomia da criança, mesmo que estes sentimentos/modelos não sejam dados pelo casal", diz.

Ele pensa também que essa medida pode ser adotada por quem tem intenção apenas de procriar e que não está apto a se relacionar. Se existe lá no fundo o desejo de constituir uma família pelos moldes tradicionais, esta é uma escolha que deve ser bem pensada. "Para quem tem interesse em participar de maneira ativa de tudo, acho bom ponderar se, fazendo um filho por esse método, não estaria perdendo o processo de construção de uma relação, o viver em conjunto a gravidez". E completa: "Acredito que as pessoas que procuram o site queiram ir direto ao ponto, mas isso não impede que construam uma relação sadia, mesmo que não vivam sob o mesmo teto."

Como toda criança, a fase da curiosidade vai chegar. E como contar para ela o encontro dos pais e como ela nasceu? "É interessante que isso seja discutido previamente entre os pais. Talvez a questão central seja a forma como a criação será, a normalidade com que o assunto é encarado, discutido. Se há espaço para o diálogo e para reflexões, talvez esta criança não venha ser acometida por revoltas ou traumas", acredita o psicólogo.

Definido o co-participante da fecundação, um contrato é feito entre as partes para definir questões relacionadas à criação do filho. E é importante que as determinações sejam homologadas pelo juiz. "Neste caso, cabe aqui a guarda compartilhada, ou seja, pai e mãe terão direitos e deverem sobre a criança de acordo com a possibilidade (quanto eu posso contribuir) e necessidade (do que a criança precisa) do menor", explica Dra. Lorena Carneiro Vaz, advogada do escritório Advocacia & Tribunais.

Caso apenas uma das partes queira ficar com a criança, é preciso entrar com um pedido de guarda unilateral na justiça. A partir daí, o juiz vai avaliar se a pessoa solicitante tem condições de manter a criança. "Essa medida não exclui a outra parte da vida da criança. Ela terá que seguir regras, como visitas em finais de semanas alternados, mas não será vetado de ver a criança, mesmo que isto acontece sob a vigilância de um membro do Conselho Tutelar", lembra a advogada.


É possível ainda que a criança opte por ficar com um dos genitores. Apesar de a opinião dela não ser decisiva, ela será ouvida por assistentes sociais e psicólogos e pode contar pontos no aval do juiz. "Aqui uma das partes conquista a guarda unilateral, mas não excluo do outro o direito de acompanhar o desenvolvimento da criança", conclui Dra. Lorena.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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