Quais são os limites da reprodução assistida?

Os limites da reprodução assistida

Em abril deste ano, um caso chamou a atenção da medicina e de mulheres que sonham em se tornar mães. Uma mulher de 28 anos recorreu aos tratamentos oferecidos pelas clínicas de reprodução assistida para engravidar. Após dar à luz a três meninas, decidiu que só queria duas e estava disposta a entregar uma delas para adoção.

Os planos da mãe dividiram opiniões e levaram muitas pessoas a colocarem em discussão a necessidade de se estabelecer regras nos procedimentos de reprodução assistida. Esses limites foram estabelecidos no dia 06 de janeiro de 2011, quando o Diário Oficial da União publicou a Resolução 1957, que define o número de embriões a serem implantados no útero de acordo com a idade da mulher.

Pacientes com até 35 anos devem receber até dois embriões. Entre os 36 e os 39 anos recomenda-se a implantação de embriões. E em mulheres com mais de 40 anos podem ser implantados quatro embriões.

"Essa lei é benéfica, mas incompleta, porque descarta a individualidade do tratamento, a humanização do paciente. Cada caso deveria ser avaliado de acordo com a necessidade do paciente", opina Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi, ginecologista-obstetra, especialista em medicina reprodutiva e diretor do Centro de reprodução humana do Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (IPGO).

Sobre o caso da mãe das trigêmeas, o especialista garante que a mulher sofria de algum problema psicológico. "Não é normal a mulher passar por um tratamento oneroso como esse e não querer os bebês", afirma.

Para a psicóloga clínica Liliana Seger, autora do livro "Psicologia e Reprodução Humana Assistida: uma abordagem multidisciplinar", casos como o da jovem de 28 anos acontecem com mais frequencia do que se pensa ou se divulga. "Em muitos deles, a situação financeira do casal, associada a um transtorno psicológico, pode fazer muitos estragos não só no nascimento da criança, como em todo o seu desenvolvimento", garante.

"Mas, de um modo geral, os casais que passam pelo tratamento, principalmente aqueles que tiveram várias tentativas sem sucesso, quando engravidam de gêmeos ficam muito felizes. É como se recebessem um ‘presente’ ainda melhor! E, consequentemente, lidarão com as questões de uma forma mais tranquila do que aqueles casais que tiveram gestação gemelar e não ‘esperavam’", completa.

Parte-se do princípio de que as mulheres procuram as clínicas de reprodução assistida somente quando não conseguem engravidar pelos métodos naturais. Mas em meio a uma sociedade que cobra do público feminino uma série de papéis - profissional, dona de casa e mãe - não é raro ver mulheres férteis procurarem os tratamentos apenas para ter mais de um filho de uma vez só e retomar a vida.

Dr. Arnaldo confirma a existência desse quadro. "É verdade sim, mas cabe ao médico esclarecer que as coisas não são como os pacientes pensam. Não há garantias de que a mulher vai ter mais de um bebê. E cabe também ao profissional destinar o serviço a quem realmente precisa". Dra. Liliana completa: "A responsabilidade de implantar mais embriões do que a lei permite é do médico. Os casais acreditam que com mais embriões suas chances serão maiores. Mas este fato ainda não foi comprovado pela ciência."

A psicóloga lembra que as mulheres que não conseguem engravidar e querem muito, reagem de forma bem diferente das que querem engravidar como se fosse mais um ritual a cumprir (ser bem sucedida, ter um trabalho de reconhecimento social e, para não ficar diferente das outras, ter um casamento e lindos filhos).

"São perfis psicológicos muito diferentes. As mulheres que querem ter mais de um filho para ‘evitar’ outra gravidez podem fazer isso por diversas razões: pressão familiar ou religiosa, idade avançada, questões profissionais, entre outras", diz. "Em outros casos, quando essas mulheres conseguem parar para repensar o tipo de vida que estão levando e se dão conta de que já têm 35 anos ou mais, se assustam com o ‘relógio biológico’".

Para ajudar as mulheres a lidarem melhor com o tratamento de reprodução assistida, algumas clínicas contam com um psicólogo, mas Dra. Liliane lamenta o fato de haver muita desinformação sobre o real papel do profissional de saúde mental.

"Muitos pacientes têm muito medo de ir ao psicólogo e ouvir bobagens como: ‘você precisa ‘desencanar’ que aí engravida’ ou ‘relaxe, quando você parar de pensar o bebê vem’. Esses ‘conselhos’ fazem com que as mulheres se sintam extremamente culpadas por não estarem conseguindo engravidar pelo aspecto emocional e isso não é verdade".


Dra. Liliane conta que entre as fontes que geram ansiedade, raiva e tristeza na mulher que não consegue engravidar estão datas comemorativas, como aniversários de crianças, Natal e Dia das Mães. "Após inúmeras tentativas sem sucesso, não há como a mulher não ficar mal emocionalmente e o psicólogo ajuda muito a lidar com essas situações."

Por Juliana Falcão (MBPress)

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