Mulheres que apostam no parto domiciliar

Mulheres apostam em parto domiciliar para fugir da

Foto: Steve Hix/Somos Images/Corbis

Uma em cada quatro mulheres no Brasil, usuárias de planos particulares ou do SUS, sofreu algum tipo de violência institucional durante o parto. O dado alarmante veio da pesquisa "Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado", divulgada pela Fundação Perseu Abramo em 2010. O levantamento foi refeito por um grupo de blogueiras em 2012, e, recentemente, por alunas do curso de Obstetrícia da USP. O resultado foi o mesmo.

Essa violência não é só física, mas também emocional. "Toda e qualquer intervenção agressiva e desnecessária que cause dano e desconforto é considerado violência obstétrica", esclarece Mariana de Mesquita, doula, educadora perinatal e graduanda em Obstetrícia (EACH-USP). Ela revela que, já no pré-natal, a mulher ouve frases que se referem à dor no parto e à desconfiguração da vagina e passam por vários exames desnecessários que minam a confiança dela e a aterrorizam.

"A recepção no hospital não é diferente. ‘É protocolo’ a mulher se sentar em cadeiras de rodas (a dor na posição sentada aumenta consideravelmente), usar uma camisola aberta expondo seu corpo nu e receber nomes jocosos como ‘mãezinha’, ‘gordinha’", lamenta Mariana.

A partir do momento que ocorre a internação a tensão só aumenta. A doula explica que o soro com ocitocina aplicado na mãe "ajuda" a acelerar o trabalho de parto (aumentando os riscos para mãe e bebê, além de ser extremamente doloroso). Depois a mulher é colocada na posição ginecológica, enquanto que as evidências mostram que ela deve ter liberdade de se posicionar e se movimentar como preferir.

"A criticam por não se depilar, por querer parto normal e por gemer ou gritar e vocalizar durante as contrações. A ameaçam e ridicularizam com comentários como: ‘na hora de fazer você não gritou né?’ ou ‘não chora não que no ano que vem você está aqui de novo!’. É uma grande inversão de valores: eles estão à serviço da mulher e não o contrário!", diz.

Mariana também enumera a violência sofrida pelo bebê: "São realizadas aspirações das vias aéreas, manipulação excessiva, fora o colírio de nitrato de prata, cáustico e obsoleto de acordo com estudos atualizados, e a vitamina K intramuscular".

Chocados com esse tratamento recheado de interferências desnecessárias (que não são baseadas em evidências científicas atualizadas), os pais têm procurado informações sobre o parto domiciliar. Neste procedimento o bebê nasce no próprio lar ou casas de parto e vai direto para os braços da mãe, diferente do que ocorre nos hospitais, onde o bebê passa por momentos de solidão.

"Na hora em que o único consolo que este recém-chegado poderia receber depois do nascimento seria o colo da mãe, ele é mantido longe do calor humano, sozinho por horas após o parto", lembra a doula. "Quando buscam pelo parto domiciliar os pais esperam acolhimento, apoio, tratamento personalizado e apoiado na capacidade da mulher de dar à luz e na recepção carinhosa do bebê."

Como funciona o parto domiciliar?

As mulheres que tiveram uma gravidez sem nenhuma intercorrência que indique a necessidade de cuidados médicos ou hospitalares pode optar pelo parto domiciliar. Ele é realizado por obstetrizes e enfermeiras obstétricas (a equipe também acompanha o pré-natal) e deve ser planejado com o máximo de segurança possível: equipamentos necessários, medicamentos para casos de emergência e acesso ao hospital se for preciso.

Mariana conta que em países como Holanda, Inglaterra e Nova Zelândia o número de partos domiciliares é significativo, cerca de 30%. O restante é realizado em centros de parto normal e somente a quantia indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ocorre em hospitais e acompanhado por médicos (de 15 a 20%).

A ideia de que o hospital vai oferecer toda a estrutura em caso de alguma emergência pode fazer a mãe temer um pouco o parto domiciliar. Mas a doula garante que o procedimento é totalmente planejado e acompanhado por profissionais capacitados. "Sempre existirá um ‘plano B’ bastante estruturado. Não se aguarda a complicação acontecer. Ao menor sinal o parto já será transferido".

Liberdade para parir

O parto domiciliar é um evento fisiológico em que os corpos da mulher e do bebê comandam o processo. E, segundo Mariana, entre os benefícios que as mães que tiveram seu parto em casa enumeram estão o de parir sem ter que obedecer a protocolos que priorizam o melhor funcionamento do hospital. Na própria casa a mulher será atendida por quem quiser: doula, obstetriz, parteira. Também terá a companhia da família, sem restrição, e tudo ocorrerá no seu tempo, com seu cheiro, sua comida, suas roupas.

"As chances de uma mulher acabar em uma cesariana desnecessária pelo simples fato de estar dentro de um hospital são inúmeras. Ou porque ela não dilatará no tempo esperado ou porque o efeito cascata causado pelas intervenções que aceleram o parto a levará a isso", ressalta. No parto domiciliar, por ocorrer sem intervenções, a recuperação acaba sendo mais rápida.

Um parto sem intervenções é totalmente possível dentro de um hospital, desde que haja uma equipe que atue baseada em evidências científicas atualizadas e respeite as escolhas da mulher quando nenhuma intervenção é, de fato, necessária. O mais importante é que os pais se informem e façam escolhas conscientes.


"De forma alguma um parto está totalmente livre de tecnologia. O detalhe é que esta tecnologia está a serviço da fisiologia em caso de necessidade e dentro de um limite de segurança", esclarece. "A iatrogenia (alteração material ou psíquica causado no paciente por tratamento médico) tem matado e salvado muitos bebês. Cabe à assistência obstétrica brasileira encontrar o meio termo e respeitar as escolhas de mulheres saudáveis e inteligentes, que possuem autonomia para defender seus direito e os de seus filhos", avalia Mariana.

Juliana Falcão (MBPress)

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