Maternidade Moderna

Pediram-me um texto sobre visitas na maternidade. Já escrevi vários deles: falando de prazo para fazer a visita, presentes, quem avisar, lembrancinhas, etc. Mas, antes que começasse mais um deles nessa mesma linha, ocorreu-me que, de alguns anos para cá, as maternidades mudaram tanto, mas tanto, que talvez fosse o caso de uma reflexão sobre o conceito mesmo, antes de falarmos das amenidades que acompanham o nascimento de uma criança.

Que as maternidades ficaram mais modernas não resta a menor dúvida: hoje a maior parte tem restaurantes de dar água na boca, lojas de presentes que poderiam estar em um shopping de luxo, cabeleireiros para as jovens mães, pacotes de tratamentos estéticos... uma beleza.

Algumas em um determinado momento até equiparam seus quartos com carpetes e forrações decorativas. Depois, percebendo que não era o ideal em termos de higiene para os bebês, voltaram atrás e voltaram a conferir uma aparência mais asséptica a suas acomodações.

Aí há uma enorme e reluzente camada de verniz nas novas maternidades, que oferecem serviços de vídeo e foto para todas as etapas: antes, durante, depois do nascimento. Registram os pais, o bebê, os avós, as visitas... uma canseira sem fim - uma vez que todos acabam tendo que se produzir e se preocupar com o momento do vídeo, a luz, o som, etc, em vez de se concentrar no repouso, na mamada, nas sutilezas de cada movimento, cada piscar de olhos da criança em questão.

Não estou exagerando, não. O que aconteceu é que houve até uma melhora em termos de serviços médicos em função da medicina e do apoio das novas tecnologias. Houve um grande incremento nos serviços de paparicação - como acabo de mencionar. Porém em relação ao relacionamento pais/bebê houve uma inversão de valores.

O vínculo da mãe nos primeiros dias e até meses da vida dos filhos, em vez de se aprofundar e reforçar, parece cada vez mais diluído.

E não é para menos! Elas ficam tão imersas na escolha deste ou daquele serviço, deste ou daquele tipo de álbum ou lembrancinha (agora tem também as virtuais) e preocupadas em marcar a cirurgia para voltar logo à antiga forma (sim, agora há esta modalidade de aberração) que mal têm tempo para o filho.

Amamentar? Nem pensar. A maior parte das jovens mães que conheço apressam-se em justificar que não amamentaram porque não tinham leite. Há uma nova geração mundial de mães que não têm leite. Claro que não têm. Até porque, se tiverem, elas logo se convencem que “é pouco” ou “não era de boa qualidade” e rapidamente passam para a mamadeira complementar e suspendem a mamada do peito.

Não estou ranzinza, não. Você já reparou como os antigos lacinhos azul ou rosa pendurados à porta dos quartos indicando se o recém-nascido é menino ou menina foram substituídos por verdadeiras instalações psicodélicas, algumas até com efeitos especiais? Algumas têm até árvore genealógica pendurada na porta... Eu, hein?

Outro dia, em uma visita a maternidade à filha de uma amiga, fiquei perplexa com a movimentação no corredor. Aí percebi que não eram só amigos e visitas. Havia também um pequeno exército de seguranças (tanto dela quanto dos amigos).

Todos devidamente armados e tentando sem muito sucesso parecer interessados em alguma coisa. Ao mesmo tempo, mantinham uma postura alerta e descompromissada. Impossível para eles. Complicado para a própria maternidade e totalmente fora do contexto e da necessidade do momento.

Como se vê: falar em talco, pomadas e conselhos, curtir o cheiro, o choro e os primeiros movimentos com privacidade e na intimidade da família está tão fora de moda quanto de questão. De modo que não, não me sinto habilitada para dar palpites de como devem se comportar as novas mães ou mesmo as famílias em um momento tão especial como esse.

De verdade, acho que é um momento de recolhimento. Uma oportunidade para estar sozinha com o marido e os pais. Talvez uma ou outra melhor amiga - mas muito amiga mesmo. O resto - visitas, paparicação, apresentação ao mundo, e exibição dos rebentos - pode e deve esperar pelo menos um mês. Que passa rapidinho e é ótimo para devolver a perspectiva para quem está mergulhado em uma nova e mágica rotina : ser mãe.

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Jornalista, escritora e palestrante, Claudia Matarazzo é autora de vários livros sobre etiqueta e comportamento: “Visual, uma questão pessoal”, “Negócios Negócios - Etiqueta faz parte”, “Amante Elegante - Um Guia de Etiqueta a Dois”, "Casamento sem Frescura", "net.com.classe", "Beleza 10", "Case e Arrase - um guia para seu grande dia", "Gafe não é Pecado" e "Etiqueta sem Frescura"

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