Consequências emocionais de um aborto

Conseqüências de um aborto opcional

Muitas mulheres são surpreendidas durante a vida por um aborto. Os motivos podem ser vários, sérios, racionais. O fato, porém, é que a maior parte delas acaba se sentido culpada para sempre. Na entrevista a seguir, o psiquiatra e psicólogo Alfredo Simonetti fala sobre as consequências psicológicas e emocionais que recaem sobre mulheres que já cometeram aborto.

O instinto materno nasce com a grande maioria das mulheres. Por mais que acreditem ter motivos racionais para cometerem um aborto, como a continuidade do sucesso profissional ou o medo de perder o apoio familiar, essa decisão pode trazer consequências negativas em termos emocionais e comportamentais?

O aborto costuma deixar marcas muito mais na alma do que no corpo. A racionalidade dos motivos não anula a força da tristeza e, principalmente, da culpa. Esta, a culpa, é a principal consequência do aborto, ao lado do medo de, em uma gravidez futura, não ter um filho normal. Não é comum que a mulher que fez aborto tenha problemas sexuais por causa disto.

A atual novela "Viver a Vida", da Rede Globo, apresenta o caso de uma modelo que cometeu aborto no início de sua carreira e se martiriza pelo arrependimento do ato anos mais tarde. Esse arrependimento é comum entre as mulheres que cometem aborto, mesmo baseadas em motivos bastante racionais?

É claro que o arrependimento pode acontecer com uma ou outra mulher, mas não é o mais comum. O que acontece mais frequentemente é o lamento. A mulher lamenta ter tido que fazer tal coisa, sente-se culpada e triste quando toca no assunto, mas muitas entendem que não poderiam ter feito diferente "na ocasião". O arrependimento é um sentimento pouco prático. Ele não resolve nada, serve somente para se torturar.

Quais as consequências psicológicas para as que cometem aborto por não aceitarem, por exemplo, um bebê que já tenha durante a gravidez um diagnóstico de grave doença?

Se o aborto é por motivo de doença do feto, alivia um pouco a culpa. Mas só um pouco. A culpa e a tristeza continuam lá porque o aborto não implica apenas em coisas racionais. Sentimentos muito primitivos estão em jogo. E, no caso de aborto por doença, entra em cena a escolha, coisa que não é menos angustiante.

Ainda baseado na novela "Viver a Vida", a personagem que comete o aborto no início de sua carreira como modelo engravida novamente após ter conquistado muito sucesso profissional. Dar à luz em outro momento da vida pode "curar" a dor do arrependimento pelo aborto cometido?

Não, absolutamente, não. Às vezes é o contrário. A nova gravidez só reaviva o sentimento em relação ao aborto. A mulher pode pensar: agora seriam dois e não um. Esta é uma característica da vida afetiva humana. Os objetos amorosos não são substituíveis. Pensemos no caso de uma mulher que levou um fora do namorado. Arrumar um novo pode servir para provocar o ex, mas não cura a dor da rejeição.


Conversar com outras pessoas sobre o assunto pode aliviar a dor do arrependimento?

Sim. A conversa pode aliviar a dor. As palavras têm uma certa magia, mas não é nada de sobrenatural. A magia das palavras é o seu poder de dissolver aquilo que não pode ser resolvido. Tem coisa que se resolve e tem coisa que se dissolve, só se dissolve. Mas no quê? Tem gente que tenta dissolver um problema nas compras, no sexo, na bebida, na violência, e por aí vai. Mas parece que a palavra ainda é o que há de melhor para dissolver coisas que não se resolvem, como um aborto, por exemplo.

Por Adriana Cocco

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