Como funciona a reprodução assistida para casais homossexuais?

Como funciona a reprodução assistida para casais h

Foto: Jamie Grill/Tetra Images/Corbis

Depois de terem suas uniões reconhecidas pelo Supremo Tribunal Federal, os casais homossexuais conquistaram também a chance de gerar filhos por meio de reprodução assistida. As novas regras estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), editadas em 2010, correspondem a mais um passo na luta contra o preconceito.

O Dr. Philip Wolff, biólogo, embriologista e diretor laboratorial da Clínica Genics - Medicina Reprodrutiva e Genômica, é um dos que apóia as mudanças. "Constituir família é um direito universal, independentemente da orientação sexual". Mas lamenta: "Existe ainda muita falta de informação a respeito do assunto. As clínicas, por temerem algum tipo de represália por parte de outras pacientes, evitam comentar sobre determinados procedimentos."

No caso dos casais compostos por mulheres, uma doa o óvulo e o sêmen vem de um banco. A gestação pode ser feita pela doadora do óvulo ou pela parceira.

Ana*, de 37 anos, e Sonia*, de 31, se relacionam há oito anos. Sonia tem uma filha adolescente de 13 anos e Ana sonhava em ser mãe. Foi aí que a reprodução assistida entrou na vida das duas. O óvulo usado foi o da própria Ana e o esperma veio de um banco. "Tentei pela primeira vez quando eu estava com 33 anos. Achei que tinha 100% de chance de dar certo. Mas não foi assim que aconteceu", lembra.

Tentou mais três vezes e não conseguiu. E não havia possibilidade de Ana usar o óvulo da companheira, porque elas eram de grupos sanguíneos diferentes. Elas tentaram recorrer à adoção, mas a burocracia era grande demais. "Fiquei tão frustrada que pensei em não repetir o procedimento. Já havia gasto muito (foram mais de R$ 25 mil). Mas no fundo ainda sentia vontade de tentar mais uma vez. E com o apoio da minha companheira, procurei a clínica novamente", conta.

Na quinta tentativa foram implantados três óvulos. Dias depois, ligaram da clínica. Ana estava grávida. "Completei três meses de gravidez. Estou esperando gêmeos! Minha família e meus amigos demoraram a acreditar que estava mesmo grávida, pois eles não sabiam que eu estava tentando engravidar. Quis poupá-los por causa da ansiedade que esse processo todo costuma gerar", diz Ana, que diz não ter sofrido nenhum tipo de preconceito por parte da equipe médica. Pelo contrário, só tem elogios. "Todos me trataram muito bem, me passavam confiança, me amparavam. Estamos muito felizes.

Ana, que mora com Sonia num apartamento pequeno, pretende futuramente se mudar para dar mais conforto às crianças. Mas agora o que ela quer mesmo é curtir sua gestação. "Eu acho que se a pessoa tem o desejo de ser mãe tem que arriscar todas as possibilidades, porque depois, quando ficar mais velha e perceber que não dá mais e que não se esforçou o bastante, ficará frustrada e este é o pior dos sentimentos. Tem gente que tenta uma vez, dá negativo e logo desiste. Não pode. É preciso tentar de todas as formas. Se não der mesmo, é porque não era para ser", pensa.

O especialista diz que em todo o mundo existe uma forte tendência ao debate sobre o tema. Isso porque a reprodução humana para casais homoafetivos é uma realidade. "Na Índia, por exemplo, é perfeitamente normal as pessoas contratarem uma barriga de aluguel e pagar pelos seus serviços", lembra.

Nos Estados Unidos, dependendo do Estado, Dr. Philip explica que o processo é simplificado pelo acompanhamento de assistentes sociais, psicólogos, advogados e juízes. "A doação de gametas pode ser feita às claras, com todos os envolvidos cientes de quem é quem ou como é feito no Brasil - mantendo-se o anonimato."


Feliz em poder ajudar casais a aumentar suas famílias, o embriologista lamenta que ainda haja barreiras para execução desse processo, principalmente no que diz respeito aos homossexuais. Para ele, a tolerância e o respeito ao próximo é um bom caminho para nos tornarmos seres humanos melhores.

"Acredito que os casais que nos procuram têm o desejo da maternidade/paternidade tão forte, que as crianças geradas por reprodução assistida irão desfrutar de um ambiente sadio, amoroso, com boa educação e valores muitas vezes mais sólidos do que em famílias nas quais os filhos não foram planejados ou são criados por outras pessoas", analisa.

Por Juliana Falcão (MBPress)

*Os nomes foram trocados a pedido das fontes.

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