Como é ser uma mãe bipolar?

Como é ser uma mãe bipolar

Adriana de Carvalho Matielo. Foto/Arquivo Pessoal

A maternidade não é uma missão simples para nenhuma mulher. Porém, para Adriana de Carvalho Matielo, de 29 anos, a tarefa de ser mãe é ainda mais complicada, porque ela é bipolar. Como será cuidar de seus filhos sem que as constantes alterações de humor interfiram neste processo?

Por definição, o Transtorno Bipolar é uma forma de mudança repentina e agressiva de humor. Em um dado momento, a pessoa está eufórica, com hiperatividade física e mental; logo depois, passa por uma fase de depressão, lentidão de raciocínio e inibição.

Adriana é casada há 13 anos e o primeiro fruto desta relação, Rebeca, nasceu há um ano e sete meses. É dona de casa atualmente para conseguir dar atenção 24 horas à filha. O transtorno bipolar foi diagnosticado aos 13 anos de idade e, na época, ninguém deu tanta importância ao diagnóstico.

"Não entendíamos o que era a então Psicose Maníaco-Depressiva e parei o tratamento depois de um mês. Convivi com as minhas oscilações de humor como se isso fosse parte da minha personalidade e nada que precisasse de tratamento", explica. "Com 20 anos, quase 21, tive uma crise depressiva muito profunda e cheguei a ser internada por risco de suicídio. Foi quando as coisas mudaram", conta a mãe de Rebeca.

Depois deste episódio, Adriana precisou compreender sua condição e passou a tomar remédios. No início, ela chegou a largar o tratamento por causa de um aborto espontâneo, mas logo teve uma recaída e precisou voltar aos medicamentos.

A primeira gravidez fez com que o desejo de ser mãe viesse à tona, apesar de seu Transtorno Bipolar. "Tive, e ainda tenho, muito medo das minhas oscilações de humor, dos remédios não serem bons para o bebê durante a gravidez, de saber se eu poderia amamentar, como seriam as madrugadas, enfim, criar uma criança consciente dos meus momentos de instabilidade emocional", revela.

Assim que teve a certeza de que queria engravidar, Adriana foi até sua psiquiatra e revelou que seria capaz de fazer tudo o que tivesse ao seu alcance para ter um filho de maneira segura. Após muitas conversas com a profissional, ela contou que durante a gestação não seriam necessários os remédios, mas, para isso, era preciso ficar pelo menos um ano sem nenhuma oscilação de humor.

"Depois de cinco anos de ajustes de remédio e terapia fiquei estável o suficiente para começar a tentar engravidar. Foram mais dois anos de tentativas frustradas, mais um aborto. Então retomei a medicação até o dia em que meu teste de gravidez deu positivo e, mais uma vez, fiquei sem medicação nenhuma", conta Adriana.

A mãe de Receba conta que seus maiores desafios foram - e ainda são - as madrugadas, porque ela demorou bastante para aceitar a ideia de levantar durante a noite. Aceitar tais condições e retomar a medicação correta foram grandes problemas e Adriana precisou compreender sua nova faze e realizar tudo o que era preciso. Ela saiu da nova depressão e hoje consegue se levantar durante a noite sempre que preciso.

"Acho que tenho que usar a doença a meu favor. Sei que estou sujeita a oscilar, a exagerar e até mesmo a ver as coisas e dar valor a elas de maneira desproporcional. Então eu fico mais atenta ao jeito como vou reagir e falar com a Rebeca. Fico também atenta ao meu humor e tenho que pedir e aceitar ajuda, além de entender que isso não é algo ruim. Desta maneira fica mais fácil estar em sintonia com o que minha filha sente", relata a mamãe de primeira viagem.

Todas essas dúvidas e receios de Adriana fizeram com que ela elaborasse um blog, intitulado "Mãe Bipolar, Filha Jacaré". Nele, a dona de casa escreve suas inseguranças, seus erros, acertos e pretende ajudar outras mulheres que também possuem o Transtorno Bipolar. "A ideia de fazer o blog foi da minha irmã, para que eu pudesse trocar informações com outras mulheres e até mesmo as bipolares que vivessem o mesmo momento que eu, podendo tirar dúvidas e até mesmo receber conselhos. Também é uma forma de terapia. Através do texto, analiso melhor o meu humor e posso, quando necessário, agir rapidamente para evitar as crises", explica.


Quanto a ter outros filhos além de Rebeca, a resposta é clara: "Quero sim, mas irei adotar. Não quero correr o risco de ficar sem a medicação durante a gravidez, levar o tempo que levei para me recuperar, tendo a responsabilidade de cuidar de uma criança pequena".

Por Carolina Pain (MBPress)

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