Cesárea programada pode levar a filhos prematuros

Cesárea programada pode levar a filhos prematuros

Foto: Mike Kemp/Tetra Images/Corbis

De acordo com o estudo "Prematuridade e suas possíveis causas", realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Ministério da Saúde, 11,7% das crianças nasceram prematuras no Brasil em 2010. O dado divulgado em Brasília no início deste mês deixa o país na décima posição no ranking mundial. Nos países de baixa renda este índice é de 11,8%.

No ano avaliado nasceram 15 milhões de crianças prematuras (abaixo de 37 semanas de gestação). As regiões mais desenvolvidas do Brasil (Sul e Sudeste) foram as que apresentaram os maiores percentuais de prematuridade (12% e 12,5%, respectivamente), seguidos pela Região Centro-Oeste (11,5%), Nordeste (10,9%) e Norte (10,8%).

O estudo ainda relaciona o parto cesárea ao aumento da prematuridade. O Brasil apresenta as mais altas taxas de cesarianas no mundo, chegando a 52,3% em 2010. Inclusive esses números alarmantes foram um dos motivadores do documentário "O Renascimento do Parto", dirigido por Eduardo Chauvet. Nele é apresentado o parto humanizado como opção à cesárea e os benefícios desse procedimento para mãe e bebê.

A produtora e roteirista do documentário Érica de Paula, que também é doula, disse ao VilaMulher que um parto cesárea, feito antes de a mulher iniciar o trabalho de parto, pode trazer problemas para o bebê. "Temos uma epidemia oculta chamada de prematuridade tardia, que corresponde aos bebês nascidos de cesarianas agendadas antes da hora e que precisam muitas vezes de cuidados numa UTI após o nascimento, por desconforto respiratório", alerta.

Érica garante que nenhum exame atual pode garantir que o bebê está preparado para nascer, independente se a mulher já está com mais de 40 semanas de gestação, se o bebê tem um peso estimado de 4kg ou se a placenta está grau 3. Nada disso garante que o pulmão do bebê (a última parte a se desenvolver) está preparado para a vida extrauterina.

A doula critica ainda a ultrassonografia, alegando que este não é um exame absolutamente exato, havendo sempre uma margem de erro de duas semanas para mais ou para menos, sobretudo se ele não é feito logo no início da gestação. Sendo assim, se uma cesariana é realizada com 39 semanas de gestação, por exemplo, esse bebê pode ter na verdade 37 semanas e nascer com dificuldades respiratórias.

"Cada bebê tem um tempo de maturação, que é único e individual. São como frutas numa árvore - não ficam maduras todas ao mesmo tempo e não são tão gostosas se retiradas antes da hora. Quando o bebê está maduro e pronto para nascer ele libera no corpo da mãe substâncias que desencadeiam o trabalho de parto", explica Érica.

Opção pelo parto humanizado

A doula comenta que a cesárea acaba sendo a opção da mulher por conta de vários mitos: que o parto normal pode atrapalhar a vida sexual da mulher (o que é uma grande bobagem), que dói muito (sendo que na maior parte das vezes o mais dolorido são os procedimentos desnecessários, e não o parto em si) e que a cesária é mais segura (o oposto do que é provado cientificamente, por conta das chances de complicações em curto, médio e longo prazo).

Os profissionais participantes do documentário lembram que a maioria das mulheres, no início da gestação, gostaria de ter um parto normal, mas mudam de ideia ao longo do pré-natal por influência médica ou do sistema. Felizmente, o maior acesso à informação está fazendo as mulheres questionarem, pesquisarem, trocarem de equipe e correrem atrás dos seus partos.

"Acredito que está havendo uma maior conscientização da diferença entre um parto normal (que normalmente é cheio de intervenções traumáticas e desnecessárias) e um parto humanizado, no qual essa mulher terá seus desejos respeitados, será tratada de maneira personalizada e só sofrerá intervenções se realmente forem necessárias", avalia Érica.

As mães que optam por um parto humanizado querem viver esse momento como uma experiência transformadora e tornam o nascimento um evento familiar e único. "Até pouco tempo, partos na água, domiciliares e de cócoras eram estigmatizados como sendo coisa de gente alternativa. Atualmente, atendemos muitas mulheres que fogem completamente desse perfil, como executivas, advogadas, juízas e diplomatas", revela.

E é justamente essa mudança de atitude que pode ajudar a reduzir o número de cesarianas desnecessárias e forçar os profissionais a adaptarem suas condutas. A partir daí outras ações poderiam ganhar corpo. Uma delas seria o Ministério da Saúde e as agências reguladoras do serviço suplementar fiscalizarem com mais afinco as indicações de cesariana.


Érica acrescenta que o governo também poderia fazer sua parte por meio de campanhas e construção de mais centros de parto normal (prevista pelo programa Rede Cegonha). "Atualmente a mulher só pode escolher entre um parto violento e cheio de intervenções ou uma cesariana marcada (no caso do SUS, as mulheres não possuem a escolha da cesárea). É preciso oferecer uma terceira opção: um parto respeitoso e humanizado, para que elas possam fazer essa escolha após terem acesso a todas as informações disponíveis", defende a doula.

Juliana Falcão (MBPress)

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