Anencefalia e aborto

Anencefalia e aborto

Aborto sempre foi um tema bastante delicado e costuma gerar grandes polêmicas quando colocado em pauta. A ideia de interromper uma vida é abominada pelas classes religiosas e analisada com cuidado por autoridades e membros da sociedade civil. Entretanto, quando se fala em abortar uma criança com anencefalia, malformação que impede o desenvolvimento do cérebro, da calota craniana e do couro cabeludo, o assunto é tratado de maneira diferenciada, uma vez que as chances de sobrevivência do feto são praticamente nulas.

Para debater o assunto de maneira mais aprofundada, o Grupo de Estudos sobre Aborto (GEA), em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizam no dia 27 de maio, em Brasília, o "Seminário sobre anencefalia". O evento contará com a presença do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, da secretária especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, do obstetra e geneticista Thomaz Gollop, do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, e do presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto D’Avila.

Segundo o obstetra e geneticista Thomaz Gollop, o diagnóstico de anencefalia é 100% seguro e diagnostivado por meio de uma ultrassonografia realizada na 12ª semana de gravidez. "A frequência desta anormalidade no Brasil é da ordem de 1 para cada 700 nascidos vivos. Não há tratamento e os fetos portadores dessa anomalia irreversível tornam-se natimortos cerebrais. Não há vida, mas pode haver sobrevida vegetativa".

A mulher que carrega em seu ventre um feto anencefálico corre o risco de ter hemorragias pós-parto. Por esse motivo a interrupção da gravidez nesses casos se torna necessária. "Isso ocorre porque há o acúmulo de ácido amniótico por conta da diminuição de deglutição do feto anencefálico, provocando uma distensão exagerada do útero e o déficit de contrações depois do parto", diz Gollop. "Além disso, os ombros de fetos com essa anomalia são maiores, o que pode gerar complicações no parto. Outro problema é o prolongamento da gravidez, que costuma avançar além das 40 semanas".


Diante de todos esses riscos, o seminário visa ainda debater o direito da mulher escolher entre interromper ou não a gravidez quando a anencefalia for diagnosticada, esse julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54, impetrada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde (CNTS), deverá ser votada ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "Queremos avaliar a possibilidade de a mulher antecipar o parto nesses casos sem ter que solicitar a autorização para o Judiciário, como vem acontecendo de 1989 para cá. Não se pode confundir antecipação terapêutica do parto com aborto", finaliza Gollop.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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