Aborto espontâneo: o drama

O drama do aborto espontâneo

Aborto espontâneo. Só quem já passou por isso sabe a sensação que causa. E quem já viveu a situação também sabe bem que dividir a dor ajuda. Mas como o assunto é pesado, às vezes acaba velado, transformando o sentimento em ainda mais dor.

Pensando nisso, a professora portuguesa Maria Manuela Pontes resolveu quebrar o silêncio e dar voz às mulheres que enfrentaram o mesmo problema que ela. Maria travou uma luta pela maternidade durante três anos e sofreu aborto espontâneo duas vezes. No livro "Maternidade interrompida - O drama da perda gestacional" (Editora Ágora, 2009), ela traz depoimentos que tratam da dor e do luto de mulheres que viveram essa situação.

Além do livro, ela fundou há oito anos o Projeto Artémis, em Portugal, onde vive. A associação apoia as mulheres vítimas desse tipo de perda e é uma das maiores organizações não-governamentais na área, oferecendo atendimento psicológico e aconselhamento às mães e a seus familiares.

Maria acredita que o aborto espontâneo é um tema pouco divulgado. "Existe um enorme silêncio ao redor do assunto, com nuances de um tabu que deve ser quebrado. A perda gestacional destrói vidas, famílias. É preciso dignificá-la e conhecê-la para que, de forma correta e humana, possamos ajudar essas mulheres", afirma.

O que ela fez então foi juntar o trabalho desenvolvido na associação com a experiência própria e mais dezenas de depoimentos que ouviu e organizou durante seis meses. "Ele é o meu rumo, a promessa que fiz de não cruzar os braços e a prova de que é possível sobreviver. Com ele, dou um sentido a tudo o que vivi", fala Maria sobre o livro.

Entre os depoimentos está o de Mafalda Sobral, que já sofreu nove abortos espontâneos, mas não perdeu o sonho de ser mãe. "Sofri indescritivelmente a dor da perda, de nove filhos que partiram. Todo o processo de sofrimento me condicionou como pessoa, mulher e profissional. É impossível não mudar, não se transmutarem os valores, as prioridades. Hoje, encaro o processo de perda como uma fase da vida que me ajudou a crescer como mulher", relata a advogada. Ela ignorou a opinião de médicos, amigos e família, acreditou que conseguiria ser mãe e hoje tem dois filhos.

O drama do aborto espontâneo

Divulgação

Em quatro capítulos, Maria traz mais testemunhos intensos como esse. O livro então serve tanto de apoio para essas mulheres quanto para os profissionais de saúde - que também precisam saber lidar com a situação. Ela finalmente conseguiu realizar o sonho de ser mãe pela primeira vez, em 2002, quando Vitória nasceu. Quatro anos depois, teve o segundo filho, Mateus. Em entrevista ao Vila Filhos, direto de Portugal, ela falou mais sobre esse problema que aflige centenas de mulheres.

Quais as maiores causas de abortos espontâneos identificados?

Normalmente a perda gestacional antes das 12 semanas (3 meses) é tida como uma seleção natural e, em Portugal, por exemplo, só após três perdas consecutivas é que se encaminha a mulher para um estudo profundo sobre o que realmente provocou o aborto espontâneo. Para mim, essa é uma ideia pouco humanizada que aumenta à indiferença. Mas entre as causas, posso citar desde problemas congênitos relacionados ao aparelho reprodutor, doenças auto-imunes, trombofilias e doenças infecciosas.

Como as mulheres reagem quando perdem um bebê espontaneamente?

Todas as mulheres, sem exceção, reagem mal. Sentem-se revoltadas, sozinhas, com muitas perguntas. Um dos sentimentos dominantes é a incompreensão, que leva a estados depressivos e a situações mais graves de psicoses, que necessitam de intervenção profunda e prolongada. A sociedade não aceita que estas mulheres chorem e as pessoas não compreendem porque se chora por um bebê que não nasceu. Por isso, elas se sentem completamente à margem do processo de luto. Passam-se anos, e a data da perda continua viva dentro delas. A perda passa a ser uma cicatriz e faz delas mulheres que calam um grito, essencialmente de dor e revolta.

O sofrimento dessas mulheres dura normalmente quanto tempo?

Toda a vida. Sei que deve parecer exagero, mas é a verdade. A dor apenas se transforma em saudade. Eu ainda hoje choro por meus bebês que partiram. Choro quando uma nova mamãe chega à Artémis e carrega toda aquela vivência que um dia foi minha. E as mulheres sofrem, por exemplo, quando chega a data em que deveria nascer o bebê, choram todos os anos as datas que marcam a perda e até quando voltam a ser mães e dão à luz. Todas as mulheres sofrem por toda a vida, apenas a dimensão é alterada.

Como eles conseguem superar a depressão e a dor? Qual a sua sugestão para essa superação?

Elas vão superando a dor aprendendo a conviver com ela. Por vezes, o apoio familiar é vital, o desabafar é uma ótima forma de ultrapassar o sofrimento, transformando-o em "acreditar" de novo. A depressão é mais complicada. Dificilmente uma depressão se auto-cura. É preciso intervenção de um profissional que oriente de forma terapêutica. Acredito que viver e conviver com histórias muito idênticas à nossa é a forma mais poderosa de se viver este luto.

E como encarar o desafio de uma nova gravidez?

O desafio de uma nova gravidez, para quem já perdeu um filho, é algo atroz e bastante violento. Costumo dizer que quando engravidei da minha filha Vitória, todos os dias me preparava para perdê-la. Há mulheres que pura e simplesmente não fazem o enxoval do bebê antes do nascimento e vivem em sobressaltos diários, procuram sangramentos, dores, movimentos fetais indicadores de que mais uma vez, tudo vai acontecer. Viver uma gravidez depois de uma perda, depois de termos cicatrizados na memória momentos de autêntico drama, é muito complicado e bastante desgastante emocionalmente.


Pode explicar melhor o trabalho da Artémis?

A Artémis já atendeu centenas de mulheres, com o objetivo de preencher as lacunas existentes na sociedade, pela incompreensão absurda desta realidade, e no meio médico, pela falta de dignidade no atendimento hospitalar. Os próprios profissionais de saúde são os primeiros a desvalorizar a perda.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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