Você faz parte da Geração Canguru?

Você faz parte da Geração Canguru

Foto: Image Source/Corbis

Quando se é adolescente o sonho maior é ter o próprio canto, ser independente. Só que, às vezes, a maioridade chega e outras coisas se tornam prioridade, como investir uma boa grana nos estudos, num carro e ou numa viagem. Com isso a idade vai avançando e nada do filho sair da casa dos pais.

A pessoa que tem esse tipo de comportamento é conhecida como filha canguru. E não precisa ficar envergonhada, viu? Ele é muito comum! Tanto é que virou tema de livro. A psicóloga e escritora Mariana Figueiredo entrevistou um montão de pacientes e reuniu suas impressões e pesquisas no livro "Geração Canguru", lançado pela editora nVersos.

Ela nos conta que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2005, 66% dos jovens entre 25 e 29 anos ainda residiam com os pais. Em 1993 essa porcentagem era de 43%. A renda familiar dessas famílias era superior a 20 salários mínimos.

Em 2004, 29% dos filhos com idade entre 30 e 34 anos moravam com os pais. Há 10 anos era de 20%. "Estima-se que há hoje no Brasil mais de três milhões de famílias de classes média e alta com filhos cangurus, equivalendo a 7% de todas as famílias do país", revela Mariana, que até os 27 anos foi uma filha canguru. Natural de Florianópolis, Santa Catarina, a psicóloga saiu de casa por vontade própria, para cursar seu mestrado em São Paulo.

Seriam inicialmente dois anos, mas aí outros caminhos se abriram e ela acabou ficando em São Paulo. "É difícil haver pressão dos pais quando se fala em geração canguru. Pelo contrário, eles têm prazer em ter o filho em casa, principalmente quando este está em casa para construir um padrão de vida melhor quando sair. Meus pais, como bons cangurus, não se importariam se eu estivesse até hoje em casa", revela.

Segundo a pesquisa da psicóloga, para certas famílias o filho canguru é visto como um troféu, porque já possui certo nível de independência e sucesso profissional. Os pais têm prazer em deixar este filho em casa, como forma de ajudá-lo a ter um padrão de vida maior do que se estivesse morando sozinho.

Mariana conta ainda que alguns filhos cangurus têm praticamente um apartamento montado dentro do próprio quarto e a casa acaba funcionando como um hotel, estilo casa, comida e roupa lavada. Em alguns países como Itália já é percebido uma tendência dos pais construírem espécies de estúdios dentro de casa ou mesmo no próprio terreno. Isso para que o filho possa ter independência, mas permaneça na casa dos pais.

Generalizar os motivos pelos quais a geração canguru aumentou nos últimos anos é um pouco arriscado, mas é possível enumerar alguns. Um deles é que os filhos hoje em dia querem sair de casa com um padrão econômico e material igual ou superior ao que desfrutam na casa dos pais.

Além disso, muito do dinheiro que ganham é investido em pós-graduações ou viagens para o exterior e não no aluguel ou financiamento de uma casa. Outro ponto é a relação entre pais e filhos, que está mais aberta, fazendo com que os filhos tenham total independência dentro da casa dos pais. "Temos ainda o fato de os casamentos acontecerem cada vez mais tarde", conta Mariana.

A geração canguru tem ampliado seu conceito para acolher também aqueles filhos que saem de casa e retornam, os chamados filhos bumerangues. "Às vezes voltar para casa pode ser mais difícil, porque exige novas adaptações. Principalmente se o que motivou a volta foi uma situação que envolva dor, como separações e divórcio", avalia Mariana.

Os pais enxergam esse retorno de maneira positiva. Já o filho bumerangue pode ver a situação com desconforto, até defini-la como um retrocesso. Porém, ao voltar, tem a chance de refletir sobre quais serão os próximos passos a serem dados em sua vida.

A sociedade atual vê a geração canguru como algo cada vez mais normal e aceitável. Quando o filho já passou dos 40, talvez haja um pouco de preconceito. Claro que tem gente que associa o comportamento ao comodismo, mas Mariana ratifica que não dá para generalizar e conta que alguns estudiosos associam a permanência do filho em casa a uma falta de autonomia adequada, resultando em sentimentos de desorientação e de dependência emocional.

Se formos analisar um ciclo tradicional familiar, ele começa com duas pessoas. Chegam os filhos, que crescem e vão embora, e as duas pessoas iniciais retomam a vida conjugal. Sendo assim, será que os filhos cangurus atrapalham a intimidade dos pais de alguma forma? A psicóloga acha que não.

"Na maior parte das vezes, o que as pesquisas mostram é que os pais cangurus colocam muita energia no papel de pais (mesmo sendo estes filhos já adultos) e pouca energia no papel conjugal. Cabe ao casal buscar o equilíbrio", alerta Mariana. "Isso é um risco para o casal, principalmente quando o herdeiro sai de casa. À medida que os filhos se tornam adultos, é importante que os pais passem a ressignificar a própria relação", sugere.

O evento de lançamento do livro "Geração Canguru" acontecerá no dia 22 de agosto, às 19 horas, na Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis. A pré-venda do livro acontece na livraria Saraiva.


Juliana Falcão (MBPress)

Comente