Você ensina os seus filhos como respeitar as mulheres?

Você ensina os seus filhos como respeitar as mulhe

Foto - Loop Delay/Westend61/Corbis.

Em meio a tantas ações em busca da conquista da igualdade de gêneros e o respeito à mulher, conseguimos concluir que uma coisa é certa: está nas mãos das próximas gerações seguir com a luta e obter resultados mais concretos.

Se hoje diversas manifestações são realizadas ao redor do mundo e aos poucos as pessoas tomam consciência da necessidade de extinção do machismo nas diferentes culturas é porque há mais de 40 anos líderes procuraram disseminar as ideias feministas.

Para que nossas crianças e adolescentes não tenham que passar pelo mesmo "perrengue", mães brasileiras já tomam o cuidado de ensinar seus filhos, desde pequenos, os direitos da mulher na sociedade, como devemos respeitá-las corretamente, noções de estupro e outros assuntos não menos importantes.

Conversamos com cinco mães para saber como elas tratam a educação em casa - e vimos mulheres fortes e firmes em suas causas. Umas recebem a participação ativa do companheiro em casa, outras são mães solteiras e ainda tem aquelas que são reprovadas pela família devido ao pensamento "diferente" que ensinam aos herdeiros.

Confira o depoimento das mães e aproveite para tomar conhecimento de como abordar os assuntos na sua casa também:

Ana Helena Gomes Pereira, 29 anos, é analista em expansão e tem dois filhos - Ana Luiza, de 7 anos, e Miguel, de 4:

"Faço parte da cota das ‘mães solteiras’, educo meus filhos sozinha. Na contramão, o pai faz brincadeiras negativas, falando coisas do tipo ‘fala feito macho’, que é algo que me tira do sério. A base que uso para a educação é o amor, o nosso amor. Conversamos, mesmo que brincando, que não existe aquela coisa de: ‘isso é de menino’ ou ‘isso é de menina’.

Que meninas brincam de futebol e andam de skate (a Ana Luiza faz isso). Meninos usam fantasias, fazem apresentações de dança (o Miguel faz isso). E que eles não estão deixando de ser o que são, estão apensas respeitando a vontade do outro.

A primeira vez que abordei o assunto com Miguel, ele ficou sem graça, pois estava caçoando da irmã que jogava bola. Mas entendeu que o respeito deve existir, sendo qual for a vontade da sua irmã. Um dia a Ana Luiza perguntou: ‘Mamãe o que é estupro?’. E eu respondi: ‘Nalú, se um menino quiser te dar um beijo na escola e você não quiser e ainda assim ele te forçar a beijar, é um estupro. Ele forçou você a fazer algo que não teve vontade’. Ela logo entendeu".

Marcia Marins, 46 anos, dona de casa, desenhista e empresária no ramo de demolições, tem um casal de filhos:

"Educo meus filhos com o ‘maridão’ há 24 anos. Sempre dividimos as tarefas mais convenientes a cada um. Juntos, aprendemos a lidar com as diferenças de opinião. A regra aqui em casa é bem clara em relação ao respeito ao homem/mulher/animais: não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você. Sempre se coloque no lugar do outro e pense antes de agir.

Essa regra de respeito não tem hora para começar, é desde pequeno, nas atitudes de jardim de infância, quando tratar as coleguinhas com respeito, pedir desculpa quando errar e ser gentil com as meninas.

Meu filho foi criado para respeitar SEMPRE as mulheres. E os exemplos servem mais do que as palavras. Sou filha de lésbica, com muito orgulho, e de uma criação que não me impôs nada. Então aqui em casa sou eu que penduro prateleira (adoro!), troco chuveiro e faço coisas consideradas (por outros) ‘de homem’, e sem perder a feminidade! Então meus filhos aprenderam que não existe este negócio de coisas de meninos e coisas de meninas".

Roberta Musse, 36 anos, pedagoga, tem um filho:

"Educo meu filho junto com o meu marido. Sempre expliquei o valor da mulher, conversamos de forma franca e honesta, fujo do padrão de que ele por ser menino tem que ficar com várias mulheres. Quando meu filho tinha 9 anos, seu avô disse que ele deveria levantar a saia das meninas e apertar o bumbum. Aproveitei esse caso e abordei a situação. A reação dele foi calma, de escuta, uma vez que nosso relacionamento é baseado na democracia e conversa.

Converso de tudo com ele, quebro paradigmas, faço-o refletir e pensar por ele próprio. Falamos sobre o estupro quando saiu a pesquisa do IPEA. Não acredito que seja um assunto pesado, tudo vai da maneira como se aborda.

Um dia ele me disse: ‘Nossa, meus amigos só sabem falar de sexo, de mulher! Eles têm que entender que as coisas não são dessa forma’. Foi aí que eu percebi que tinha vencido essa batalha".

Amanda Gabriela Araújo de Oliveira, 28 anos, engenheira de alimentos, tem um filho de 8 anos

"Eu e o pai do meu filho somos separados e a responsabilidade de criar e educar é somente minha, já que o pai é ausente. Eu ensino para meu filho que todos nós somos iguais, sem distinções e sem preconceitos. Uma vez ele me perguntou o que era "gay". Respondi que eram homens que gostavam de homens ou mulheres que gostavam de mulheres. E que o importante era ser feliz. E que não era nem feio ou errado, que não podemos julgar ninguém.

Como sempre saímos só nós dois e eu acabo sendo abordada no meio da rua, expliquei que o que conhecemos por ‘cantada’ não era elogio algum e sim um ato primitivo. E foi por meio desse assunto que começamos a falar sobre o respeito à mulher.

Sobre o estupro, minha fala é a seguinte: seu corpo é seu santuário, não permita que ninguém o toque sem sua permissão e me avise se um dia isso ocorrer. Do mesmo jeito que você não permite ser tocado sem querer, também não pode tocar uma menina (o) sem que ela (e) permita.

Nas reuniões de família sempre tem alguma fala machista. Um exemplo recente, meu filho disse que queria aprender a cozinhar e eu o ensinei algumas coisas básicas. Nessa falaram que se eu continuasse insistindo nesse tipo de ação iria criar um filho gay. Um pensamento retrógrado e ridículo".

Patrícia Ramalho, 26 anos, mãe, tem um filho:

"Criar um filho é uma coisa muito difícil! Meu marido trabalha o dia todo e acho que tenta compensar o tempo que fica longe mimando o Miguel. Converso com meu filho sobre tudo. Respeito à mulher, estupro, violência. São assuntos difíceis de abordar, já que ele ainda não tem malícia, maldade, mas converso com ele que toda mulher, toda menina, merece ser bem tratada e respeitada, independente de como ela esteja vestida, por exemplo.

A família do meu marido sempre tentou impor certos tipos de comportamentos, como falar pra ele beijar as menininhas na escola. O avô costumava mostrar mulheres na rua para ele e fazer comentários maliciosos, ou mesmo na televisão. E apesar das más influencias, consigo mostrar ao Miguel que o comportamento que esperam dele não é certo, não é bonito e não é o que eu espero dele.

Ele fica um pouco confuso porque eu falo uma coisa e o avô fala outra, mas entende quando eu digo que eu, a vovó e a titia ficamos tristes com ele quando faz coisas erradas nesse sentido e então ele entende".


Por Alessandra Vespa (MBPress)

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