Você cuida, cuida, cuida - e de você, quem vai cuidar?

Quantas de nós aprenderam desde cedo a ser mulher pela via do cuidado com o outro? Muito cedo ganhamos brinquedos que são também símbolos do cuidado, somos incentivadas a nos comportar e a nos relacionar sob o prisma dessa temática.

Cada uma de nós também carrega em sua história modelos, nem sempre os mais saudáveis, e convivemos com maneiras muito diferentes de lidar com esse campo das relações. Isso se refere também aos homens, que recebem influências diversas e formamos juntos todo um arcabouço de maneiras socialmente estabelecidas de lidarmos com a questão do cuidado e dos papéis, expectativas, cobranças daí advindos.

Nós, mulheres, nas últimas décadas ganhamos outros espaços além do doméstico, mas muitas outras responsabilidades também foram acrescidas à nossa lista de afazeres e preocupações. Muitas mudanças sociais se deram e não se pode mais falar em família como um só modelo, mas sim em famílias, devido às diferentes formas de organização existentes - mães que cuidam sozinhas de seus filhos, avós que criam netos, casais que se formam após um divórcio e que trazem seus filhos de outras relações para viverem juntos, casais homossexuais que adotam filhos, tios que vivem junto com os avós e criam conjuntamente com estes as crianças, os filhos dos filhos, etc. Mesmo com tantas mudanças ainda permanecem modos antigos de definições de papéis, aí que muitas coisas costumam se embolar.

Mensagens do tipo "que menino(a) sem limites", "assim você traumatiza a criança", "não se pode dizer tudo a uma criança", "não se pode esconder nada dos filhos" confirmam que "ser mãe é padecer", mas não se sabe bem se é "no paraíso". Padecimento num jogo para o qual parece não haver saída. "Se ficar o bicho pega, se ficar o bicho come"... Mas existem outras possibilidades - "se enfrentar o bicho some" é uma delas.

Encarar a humanidade do processo nos permite olhar o outro que está sob nossos cuidados reconhecendo nele fraquezas e também potencialidades. Assim como nós, que somos humanas, com as dores e as delícias de o ser. Apostando na incapacidade do outro também estamos nos tornando incapazes, na medida em que empreendemos a caçada pela satisfação plena do desejo do outro. Não está em nossas mãos, nem nas mãos de ninguém, tal tarefa.

Nesse afã de ser mulher-maravilha perdemos nossas forças pouco a pouco, ou muito a muito considerando o sem-fim de coisas que vamos fazendo sem escutar o que há de mais profundo em nós. Essa síndrome de carregar o mundo nas costas provoca muitas dores e precisamos delas cuidar, antes de tentar cuidar do outro. Senão entramos em outras síndromes, entre elas a de depender da dependência que o outro tem de nós, ou a da culpa por não darmos conta de sermos tudo e um pouco mais.

Para cuidar do outro é preciso cuidar de nós mesmas e da nossa maneira de cuidar. Redundante? Na verdade, é um ciclo. Um ciclo virtuoso, onde cada conquista nos leva a um novo passo. Sem esse cuidado, que passa por olhar e dar atenção à nossa experiência, isso se torna um ciclo vicioso, onde todos os envolvidos se enfraquecem e ninguém se relaciona verdadeiramente.

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