Vacina sem agulha?

Vacina sem agulha

Quem tem medo de agulha chega a perder o sono quando precisa se dirigir a um Posto de Saúde. Agora se um adulto fraqueja na hora de levar uma picada, imagine as crianças? É um tremendo sofrimento para o pequeno tomar vacina.

Mas para a felicidade de todas essas pessoas, cientistas da Emory University e do Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos, desenvolveram uma "vacina sem agulhas". Se tudo der certo, daqui a algum tempo a terrível picada poderá ser substituída por uma espécie de adesivo com centenas de microagulhas que se dissolvem na pele e não causam dor.

Em entrevista concedida ao Research News & Publications Office, Richard Compans, professor de microbiologia e imunologia na Emory University School of Medicine ressaltou: "A pele é um local particularmente atraente para a imunização, pois contém uma grande quantidade de tipos de células que são importantes na produção de respostas imunes às vacinas".

Inicialmente, o novo método de imunização foi testado em camundongos. Mas será que a gente já pode comemorar? O fim das agulhas está realmente próximo? "Não acredito nisso. Ainda são necessárias muitas pesquisas que comprovem a segurança e a eficácia de cada vacina, o que ainda está longe de acontecer", opina Dr. Alfredo Elias Gilio, coordenador do Centro de Imunizações e da Clínica de Especialidades Pediátricas do Hospital Israelita Albert Einstein.

Reinaldo de Menezes Martins, consultor científico da Bio-Manguinhos/Fiocruz volta no tempo e lembra que a aplicação de injeções sem agulha já foi utilizada em campanhas, inclusive no Brasil. "O procedimento foi deixado de lado por conta da possibilidade de transmissão de doenças, uma vez que se usava o mesmo dispositivo para imunizar muitas pessoas. Nos novos equipamentos de injeção sem agulha a parte que entra em contato com a pele é descartável, o que eliminou o risco", explica.

Para a pesquisa os cientistas utilizaram uma vacina-adesivo contra gripe e constataram que este método pode oferecer maior imunidade a esta doença, se comparada com a vacinação com seringas. "Atualmente já existe no mercado uma vacina contra gripe com aplicação intradérmica, que utiliza uma agulha muito menor do que a aplicação convencional por via intramuscular", diz Dr. Alfredo. "Teoricamente, o método sem agulhas poderá ser estendido para outras vacinas, mas somente os estudos poderão fazer essa comprovação".

O consultor científico da Bio-Manguinhos/Fiocruz ressalta que qualquer procedimento tem risco, principalmente se não for realizado corretamente. "Somente através da avaliação de prós e contras é que se poderá tomar decisões sobre o uso da vacina sem agulha na rotina. Entre os benefícios estão evitar acidentes com picadas de agulha - que é sempre uma preocupação por conta do risco de transmissão de doenças - e a eliminação do medo às agulhas, que prejudica a adesão às vacinações".

Outro ponto deve ser esclarecido: o fato de a vacina não necessitar mais de agulhas não significa que possa ser aplicada por qualquer pessoa e em qualquer local. "Pelo problema de contaminação e por causa da conservação do produto, a vacinação deve ser sempre armazenada e administrada em local com condições adequadas", afirma Marta Heloisa Lopes, médica responsável pelo Centro de Referência em Imunobiológicos Especiais do HC/FMUSP.


Dr. Alfredo completa: "As vacinas continuarão sendo aplicadas nas Unidades de Saúde e por um profissional treinado, porque, além da aplicação em si, há outros aspectos envolvidos na vacinação, especialmente as questões de segurança".

De uma forma geral, é difícil não comemorar este avanço, mas falta muito tempo para que a descoberta se faça presente no Posto de Saúde mais próximo de nossas casas. "Essa é uma tecnologia inovadora e promissora, mas ainda não há estudos suficientes para permitir o seu uso rotineiro para aplicação de vacinas", finaliza Reinaldo.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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