Sexualidade começa na infância

Sexualidade começa na infância

Conforme os filhos crescem, o medo de muitos pais aumenta. Principalmente quando os pequenos chegam à "fase do por que" e começam a fazer perguntas mais complexas e com explicações um tanto embaraçosas: de onde vêm os bebês, como se faz um bebê, como ele entrou na barriga da mãe, etc.

Na verdade, essa fase é apenas um trecho do desenvolvimento da sexualidade. Ainda que muitos adultos não aceitem ou desconheçam essa informação, é sim na infância que cada ser humano constrói as bases que sustentam os elementos centrais da sexualidade: a vinculação afetiva, a configuração da imagem corporal, a identidade sexual básica como homem ou mulher, a segurança e conforto como ser sexual, os medos e as preocupações e as sensações eróticas.

"Quando pensamos em prazer sexual, imediatamente nos remetemos à excitação sexual e ao orgasmo", observa Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, que orienta jovens sobre sexualidade, em São Paulo. "Mas, para chegarmos até aí, antes, foi importante vivenciar outras formas de prazer decorrentes da descoberta do corpo, do carinho e da intimidade que irão interferir diretamente na relação afetivo-sexual, permitindo a entrega, a confiança e a cumplicidade", completa.

A sensação de prazer já começa no primeiro ano de vida do bebê. Ele sente fome e alívio dela quando é saciado com o leite materno. Além disso, a estimulação da mucosa da cavidade bucal e dos lábios causa prazer para o pequenino. "Neste momento, além de saciar, o ato de amamentar propicia o aconchego e o calor do colo materno, a conversa e a troca de olhares. Este contato materno propicia a consolidação da imagem corporal, o estabelecimento de zonas erógenas e a experimentação de emoções e sentimentos associados às sensações de prazer e desprazer que ajudam a confirmar o vínculo afetivo", diz a especialista.

Com mais ou menos um aninho de vida, o filhote aumenta a percepção do meio em que vive e a coordenação motora. Assim, começa a interagir com as pessoas que o cercam. É o começo da sociabilização. Nessa etapa, os pais têm grande influência na formação de seus filhos, pois eles são a referência de comportamento. Os professores também exercem um papel importante, já que os alunos vivem tentando agradá-los. Nas palavras de Maria Helena, "Ambos são figuras significativas, referências do que vale a pena ser limitado, do que socialmente está certo ou errado."

Nessa fase, o segredo é "pegar leve" com os pequenos. "Para a criança sentir prazer nesse processo de aprendizagem, ele precisa ser gradativo, desenvolver-se num contexto de baixa tensão e sem desgaste emocional dos pais ou educador. A criança é simplesmente levada a imitar o comportamento correto e recompensada sempre que o fizer", explica a diretora.

A temida fase da investigação sexual

Quando o filho completa seus três ou quatro anos de idade, a coisa complica. Ele é capaz de diferenciar a si e aos outros sexualmente, através de observação, manipulação e percepção das sensações corporais. Descobre que homens e mulheres têm características corporais diferentes, e então vem a curiosidade e investigação sexual - e, com ela, os famosos porquês.

Para responder as questões mais "cabeludas", basta ser simples e direto. Responda somente ao que a criança perguntou e use palavras que ela conheça. Aí vão duas dicas de Maria Helena:

- A primeira é perguntar para a criança porque ela quer saber. A resposta vai indicar qual o grau da dúvida, por exemplo: de onde vêm os bebês? Serve a história da sementinha que o papai plantou na mamãe com carinho e amor e usar a linguagem simbólica.

- Outra dica é ler livros infantis com essa finalidade: explicar as dúvidas mais simples das crianças. De uma forma lúdica, as respostas são dadas. Os pais devem consultar os principais livros infantis.

Agora, a questão mais delicada talvez seja o comportamento dos filhos nessa idade. Afinal, eles descobrem que é gostoso tocar em algumas partes do corpo - principalmente os órgãos genitais - e começam a fazer isso em todo lugar.

Aí, é hora de explicar a eles as regras sociais. O conceito de público e privado pode ser bem interessante: como tais partes do corpo ficam cobertas, isso significa que elas não devem ser tocadas em público, apesar de isso ser prazeroso. "Até pela segurança da criança, pais e professores devem estar atentos e ensinar que na escola e em ambientes públicos não deve ‘mexer’ nos genitais. Falar de forma tranquila e em tom de orientação, nunca gritar", aconselha a especialista.

Porém, se mesmo depois da orientação o pequeno continuar se tocando em público, é bom verificar se ele faz isso só para chamar atenção ou se está com alguma coceira ou irritação no local.


Com calma e dedicação, os adultos podem ajudar a criança a passar por cada fase de identificação sexual sem traumas. No começo, ela vai imitar as pessoas de que mais gosta. Depois, quando souber identificar a que sexo pertence, imitará pessoas do mesmo sexo. O importante é que ela tenha sempre livre acesso aos pais e educadores para esclarecer suas dúvidas. "A escola deve estar atenta a essas situações e os pais devem orientar suas crianças desde cedo a exercer a sexualidade com responsabilidade", finaliza Maria Helena.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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