Ser mãe é isolar-se do mundo?

Ser mãe é isolarse do mundo

Foto: Eyeconic Images/Aurora Open/Corbis

Ver o rostinho do bebê pela primeira vez e poder pegar esse pequeno ser no colo são momentos tão especiais que uma mãe tem dificuldade de expressá-los com palavras. São tantas situações fofas, responsabilidades e tantos cuidados a serem tomados que as mães se esquecem do mundo e até delas nos primeiros anos de vida do filho.

A blogueira, mãe e jornalista Beatriz Zogaib, 30 anos, criadora do blog "Mãe da cabeça aos pés", tem um filho de quatro anos, chamado Leonardo. Ela revela que agiu exatamente dessa forma. Trabalhava como freelancer e quando o bebê nasceu decidiu se dedicar integralmente a ele.

"Sinceramente não acho isso ruim! Fiz uma escolha consciente, de cuidar de cada detalhe da rotina dele, sem ajuda de ninguém que não fosse meu marido (que só chegava à noite). Eu me senti completa e realizada. Faria exatamente tudo de novo", afirma.

Dar uma espiadinha na televisão e no jornal ficou em último plano, já que Beatriz quis arregaçar as mangas para cuidar da casa e do filho e ainda arranjar tempo para fazer um ou outro freela. "O que eu fazia, muitas vezes, era conversar com meu marido para ele me contar as notícias. Eu me esforçava para abrir a internet, conferir alguma reportagem, mas, honestamente, eu não tinha tanto interesse por uma nota sobre economia quanto para ler um livro inteiro sobre maternidade", lembra.

A artesã de bonecas e brinquedos Fabiana Pereira, 36 anos, passou por essa experiência mais de uma vez. Suas três meninas têm 14, 16 e 20 anos. Ela conta que filho é algo tão envolvente que não sobra tempo para prestar atenção no mundo lá fora. "A mãe fica completamente apaixonada pelo filho. Pode um elefante passar ao seu lado que ela não percebe, só tem olhos para o bebê. Tudo o que a interessa está dentro de casa", pensa.

Fabiana acha que esse momento de isolamento do mundo é saudável para as mamães. Isso porque elas passam a perceber o valor do seu tempo e entendem que, por ser precioso, precisam empregá-lo onde vale a pena. "Cuidar do filho, comer e descansar são as três tarefas mais importantes de uma mãe no início da maternidade", define.

Mas será que não chega uma hora em que a mulher sente necessidade de cuidar da própria vida? As blogueiras dizem que sim. Mas só depois que os filhos crescem um pouco. "Priorizar o filho, principalmente quando ele é neném, é algo natural e instintivo para mim.", defende Beatriz. "Há mulheres que querem voltar a trabalhar antes mesmo da licença-maternidade acabar; outras choram só de imaginar a volta ao trabalho. Então acho que cada uma deve se respeitar para não se ‘incomodar’."

Fabiana diz que passada a loucura de só falar do aspecto do cocô do filho, das golfadas e das noites em claro, a mulher respira e começa a acionar o pai, os avôs e tios. Não que eles não estivessem ali todo esse tempo, mas ela não os enxergava e nem queria que outra pessoa interferisse nessa relação. E declara: "Acho que esse período em que você não é o centro da atenção da sua vida é muito benéfico. Você para de se levar tão a sério, o que torna a sua vida muito mais simples e leve. À medida que os filhos crescem, vão tendo necessidades totalmente diferentes. Independente da idade que eles tenham você sempre vai precisar priorizar o outro na sua vida."

De qualquer forma, esse retorno à vida normal tem data para chegar. E, segundo a artesã de bonecas, os próprios filhos sinalizam isso. Eles vão preparando a mãe com a própria conquista da independência. "É normal a gente sentir um super vazio (filho não mama mais, quer fazer tudo sozinho, prefere os amiguinhos). Algumas mães até resistem e atrapalham ao máximo esse processo, para não terem que promover as mudanças que são necessárias", lembra.

Com Beatriz foi assim também. Ela foi sentindo vontade de ‘abrir uma janelinha’ à medida que seu filho foi ficando mais independente. Afinal de contas, ser multifuncional está no inconsciente coletivo, é uma cobrança pessoal e social. "Voltei a trabalhar regularmente e a encontrar tempo para fazer meu exercício, ir à massagem, ao encontro de amigas. Trabalho home office para acompanhar as atividades do Leonardo. Eu trabalhar fora ou ele estudar período integral, para mim, está fora de questão!"

Mas não importa a decisão que a mãe vai tomar depois que os filhos crescem um pouco. O tal sentimento de culpa sempre vai existir. Ou porque deixou o filho com a babá, ou porque deixou a carreira para trás. "Lidar com a culpa faz parte da maternidade! O desafio é equilibrar os pratos. E como cada hora um pesa mais do que o outro, o jeito é seguir o coração, a intuição e se respeitar. Assim tudo fica bem mais fácil e saudável", analisa Beatriz.

Fabiana finaliza fazendo outra reflexã. Ela diz que a mulher não pode se esconder atrás da maternidade. Ter filho é algo fantástico, mas ele não preenche totalmente a sua vida, e você seria incrivelmente injusta se jogasse esse fardo para ele. Só deveria ter filhos quem se enxerga feliz e realizada. "Hoje, com a maturidade que tenho, se eu tivesse que começar a ter filhos com a idade atual, provavelmente eu não teria nenhum, porque entendo que ter um filho significa muito mais que ter um pedaço de mim para amar. É colocar um ser humano, um cidadão em convivência com as outras pessoas e isso realmente precisa de muita dedicação e preparo."


Por Juliana Falcão (MBPress)

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