Quero ser o meu irmão

Quero ser o meu irmão

Em tudo ele se espelha no irmão: que ser bonito igualmente, tão legal quanto, esperto que nem ele, ganhar as mesmas coisas, os mesmos elogios, ter as mesmas preferências, ir aos mesmos lugares e vestir-se da mesma forma. O segundo filho considera o mais velho seu grande ídolo e tem nele sua referência básica de aprendizado. Até que ponto isso é normal e quando pode afetar sua identidade própria?

Na casa de Cristina V., que mora em São Paulo, duas meninas dividem o mesmo quarto. A mais velha tem 9 anos, a mais nova, 5. Quase sempre vão às festinhas de aniversário com modelos idênticos de roupas. Estudam na mesma escola, praticam os mesmos esportes. "A maior tem mais habilidade para desenhar, e a caçula fica frustrada, pois não consegue fazer igual. Em tudo ela quer se parecer com a irmã, até mesmo nos penteados".

Segundo a psicóloga Natércia Tiba, esse tipo de comportamento pode ser considerado comum e até normal, já que a maior parte do aprendizado das crianças começa por meio da imitação. "Quando pequenas, as crianças não têm critério sobre o certo ou errado e o irmão mais velho torna-se de fato sua referência, que se acentua ainda mais se as crianças forem do mesmo sexo". A influência negativa da situação, ela explica, só acontecerá se essa vontade de ser igualzinho ao irmão ultrapassar um prazo máximo de poucos meses. "Nesse caso, os pais terão de auxiliar a criança, que acaba abrindo mão de seus gostos sem ao menos conseguir identificá-los".

Uma boa solução, diz Natércia, é os pais aprenderem a valorizar as diferenças. Ao se depararem, por exemplo, com a frustração do filho mais novo que não consegue um desempenho igual ao do mais velho, é importante que os pais apontem aquilo que o caçula tem de bom. "Eles podem dizer: ‘você não desenha igual ao seu irmão porque ele já é maior, mas seus desenhos também são bons; além disso, você tem outras qualidades’". E não é porque compram determinado produto para um filho que eles devem comprar outro idêntico para o irmão mais novo, diz Natércia. "As diferenças entre as crianças são positivas. Uma boa forma de ajudá-los a se identificar por si próprios é aproveitar momentos sozinhos com cada filho. Ir a uma lanchonete, por exemplo, deixá-lo escolher seu sanduíche sem a influência de ninguém, conhecer suas preferências e incentivá-las".


Importante ressaltar que as crianças desestimuladas a descobrir suas próprias identidades podem arcar com más consequências no futuro. "Acabam crescendo demonstrando insatisfação com tudo já que não conseguem descobrir o que de fato as agrada", avalia a psicóloga.

Por Adriana Cocco

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