Quando o herói vira bandido

Quando o herói vira bandido

É natural termos referenciais, exemplos de atitude, superação, vitória. Para as crianças, essas pessoas são elevadas, muitas vezes, a heróis. Elas sonham em ser como eles e ter o que eles têm. E, quando esses verdadeiros ídolos se envolvem em escândalos ou crimes, a coisa complica.

Infelizmente, faltam "super-heróis" no Brasil - ou talvez pessoas que consigam enxergá-los. A psicóloga Dora Lorch, autora do livro "Como educar sem usar a violência" (Summus Editorial, 2007), acredita que temos uma espécie de miopia em relação aos ídolos nacionais. "Talvez isso aconteça porque só guardamos as coisas ruins que acontecem, e esquecemos as boas". Ela lembra que, em outros países, é comum existir um referencial mais claro. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos admiram e querem ser como o presidente Barack Obama.

Pior que não ter um herói nacional e real é ter e vê-lo desconstruído. Recentemente, o goleiro Bruno, acusado de matar uma ex-amante, e o atacante Adriano, envolvido em boatos e escândalos de violência, bebidas e drogas, deixaram o posto no ‘Olimpo’ da mente de muitos pequenos (e grandes) fãs. Num país que valoriza tanto o futebol, o que os pais podem dizer aos filhos que tinham esses jogadores como ídolos?

"O segredo é conversar com os filhos, falar sobre o que deu errado e por que", sugere a psicóloga. Nos casos citados, os responsáveis podem aproveitar o gancho para mostrar que ninguém está acima da lei, mesmo que seja famoso.

Mostrar que os "heróis" também falham, que eles são humanos, é de extrema importância. Os ídolos, assim como qualquer outro indivíduo, deverão aprender com os erros. E, via de regra, estão muito mais expostos que outras pessoas, caso tenham vida pública.

Desmistificar a figura do herói é fundamental para que os pequenos aprendam a lidar com frustrações e a crescer com cada experiência. Eles precisam sim saber que não existe ser humano com poderes sobrenaturais, invulnerável e bondoso, perfeito. Existem sim figuras de presença que conquistam seu espaço num mundo marcado por valores invertidos.

Aliás, os valores talvez sejam a discussão mais pertinente a respeito da desconstrução dos ídolos, sejam eles brasileiros ou não. O que nós - e, consequentemente, nossas crianças - estamos usando para classificar as pessoas? Será que, só por ser famoso, rico ou belo, um indivíduo merece ser admirado e seguido?


Na verdade, falta aos pais, muitas vezes, o discernimento para apresentar aos filhos personagens que realmente merecem admiração por suas atitudes diferenciadas. E estes indivíduos podem ser anônimos mesmo, pessoas honestas, uma vizinha que se esforça para criar um filho com alguma deficiência, um grupo que se proponha a ajudar a melhorar as condições de sobrevivência em uma comunidade carente. Mostrando "heróis" reais, humanos, e, claro, sendo um exemplo para as crianças, é possível deixá-las mais maduras e em melhores condições para enfrentar os desafios da vida.

Por Priscilla Nery (MBPress)

Comente