Quando é preciso dizer "não" aos filhos

Quando é preciso dizer não aos filhos

Certamente você ouviu várias histórias da infância de seus pais e avós em que a palmatória era usada para acabar com as travessuras da criançada. Talvez tenha recebido o famoso tapinha no bumbum. E agora como mãe apenas eleva a voz como último recurso para impor disciplina.

Falta à nossa sociedade impor limites e respeito ao próximo. Todo mundo diz "antigamente as crianças não eram assim". Os pais perderam um referencial porque a criação passada era muito autoritária e não queriam passar essa forma de imposição aos filhos. O diálogo foi usado no lugar, o que esta certo, mas acho que esqueceram-se de impor limites às crianças e elas passaram a fazer tudo que tem vontade. A palavra "não" foi tirada da educação", desabafa a Vilamiga Catarina Estevez, que tem dois filhos.

Para discutir melhor o assunto, título de várias teses e livros, o Vila Filhos conversou com a filósofa e educadora Tânia Zagury, autora do best-seller "Limites sem trauma" (na 82ª edição). A entrevista não tem o papel de condenar a forma como os pais educam as crianças, apenas serve para que eles reflitam sobre essa difícil arte de ajudar no desenvolvimento dos seus filhos nos tempos de hoje.

Por que esta geração de pais tem mais dificuldade de impor limites?

É uma questão que vem de 30 a 40 anos atrás. No final dos anos 60 e início dos anos 70, o mundo passou por uma série de transformações comportamentais visando a diminuir a repressão e a aumentar a liberdade individual. Tais pensamentos influenciaram a literatura, a música, as artes e até o comportamento da família. A revolução estudantil de 68, o movimento hippie, o tropicalismo visavam entre outros objetivos, diminuir a repressão social. Antes disso, os pais não questionavam a sua forma de educar e se sentiam seguros, achavam que estavam fazendo a coisa certa. Esse ideal de liberdade influenciou muito a família em todo o mundo, mas foi distorcido e chegou ao ponto de muitos pais acharem que devem deixar os filhos fazerem tudo o que querem.

Os pais se perdem então para conseguir o equilíbrio entre limite e liberdade?

Na verdade limite e liberdade não são conceitos opostos. Dizer não nem sempre é negativo, pelo contrário. Eu sempre costumo usar uma frase que traduz bem isso. "Use o sim sempre que possível e o não sempre que necessário". Claro que os pais têm o livre-arbítrio ao educar. Podem decidir o que e como fazer, o que pode ou não. Mas precisa pensar que viver em sociedade, significa também considerar o outro, os direitos dos outros e não apenas os seus. Assim, se o filho quer, por exemplo, comer a caixa inteira de bombons e o pai acha que tudo bem (sem considerar obesidade e colesterol), ainda assim deve ensinar a criança, desde cedo, que há mais pessoas na casa, com as quais é preciso compartilhar. É um caso simples, onde o não se faz necessário, porque ensina a viver com menos egocentrismo, sem pensar apenas no próprio prazer.

Mas a influência da sociedade em que a família está inserida dificulta muito na hora de usar o "não", pois em muitos casos se dá razão à criança. É um fato que os pais também enfrentam no dia-a-dia?

Além de saber usar o não, os pais perderam a confiança, ficam inseguros e se sentem culpados quando são mais enérgicos. A criança fica impossível e aí acabam gritando e se descontrolam, porque é muito difícil conviver com quem só faz o que quer. Recentemente, uma jovem mãe foi assistir ao filme "Sexy in the city", não recomendado para menores de 18 anos, com um bebê de colo. É claro, a criança chorou um tempão, mas ela não quis considerar o direito dos demais - nem o do próprio filho, que deveria estar no seu bercinho e não no cinema, às 10 h da noite. É um típico caso de quem cresceu sem limites e que acaba passando essa incivilidade a toda a sociedade.

Hoje, a famosa palmada é condenada por muita gente e agora os pais têm o recurso do grito. O que você acha dessa mudança?

A agressão física é hoje proibida por lei em mais de 24 países. No caso, quem antes batia e não pode mais, hoje grita para se fazer atender. É sintoma de descontrole, denota a falta de autoridade que se instalou e que acaba resultando em momentos de impasse. Depois de falar dezenas de vezes a mesma coisa e não serem atendidos, os pais perdem a paciência e explodem. Usam o grito como antes se usava a palmada. Em ambos os casos, confirma que o adulto não soube ser autoridade.

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O grito assusta de fato e a criança para. Mas o ideal seria que a fala fosse suficiente para coibir atitudes inadequadas, o que demonstraria que realmente houve compreensão e não medo. Costumo dizer que o grito é a pedagogia do desespero, e creio que esse é o momento que muitos pais estão vivendo. É preciso recuperar a autoridade agindo educativamente, sem gritar nem bater.

Por Juliana Lopes

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