Projeto de lei defende saltos de até 2 cm para crianças

Saltos para crianças  só até 2 cm

Sapatinho slipper com salto baixinho é uma opção para as meninas, elas ficam na moda sem subir no salto/Foto divulgação Contramão

Com a forte erotização e a ditadura da beleza bate à porta do público feminino cada vez mais cedo, as meninas estão trocando os sapatinhos infantis e básicos pelas versões com salto alto. Só que o uso precoce desse adereço pode prejudicar o desenvolvimento ortopédico das crianças.

Dra. Daniela Rancan, ortopedista pediátrica do Hospital Infantil Sabará, explica que até os seis/sete anos, a criança ainda está desenvolvendo a marcha e que até os 10/12 anos, os pés estão em formação. Desse modo, calçados incorretos podem comprometer o andamento deste processo. "O uso de salto alto na infância causa a elevação do calcanhar e a sobrecarga da parte anterior do pé, desbalanceando a musculatura e alterando a marcha e a postura da criança", alerta.

A médica lembra ainda que, a longo prazo, o uso do salto alto pode provocar deformidade nos pés, como joanete, calosidade, bolhas, alargamento da região anterior do pé e metatarsalgia (dor na região plantar). "Podemos citar outros problemas como fadiga, encurtamento da musculatura posterior da perna e dor na coluna associada à hiperlordose lombar."

A psicóloga infantil comportamental e arte educadora, Jéssica A. Fogaça, critica as propagandas que se encarregam de convencer as meninas a usar sapatos de salto. "Dessa forma, elas ficarão parecidas com as mães, suas grandes modelos, ou com as princesas, pois mulheres usam saltos". Para evitar o uso precoce de calçado, a especialista diz que a solução é os pais não estimularem atitudes adultas nas meninas, como dizer que elas são mocinhas e perguntar sobre namoradinhos. "Se quisermos que elas sejam crianças, devemos tratá-las como tais, sem pular etapas".

No YouTube um vídeo mostra uma criança "calçando" canecas para fazer de conta que são sapatos de salto alto, o que para a psicóloga é indício de que a criança não está brincando de ser grande, mas sim agindo como um adulto. "Por isso, mães e professoras têm que tomar muito cuidado com o que fazem e falam diante das pequenas, porque serão imitadas. Então, porque não favorecer a imitação de um modelo adequado?", pensa.

A criança está em pleno desenvolvimento físico, intelectual, social e emocional. Portanto, a especialista defende que é papel dos pais orientar e vetar as atitudes inadequadas dos filhos e dizer que a hora de usar salto alto, esmalte e maquiagem ainda não chegou. "A frustração é uma parte importante do aprendizado. E se os pais deixarem os filhos experimentar situações para as quais ainda não estão preparados, não estarão sendo responsáveis com a educação e o desenvolvimento saudável deles."

Para evitar lesões, Dra. Daniela orienta que o ideal é as crianças usarem sapatos com saltos de até 2 cm e com solado reto (plataforma). "Quando a deformidade já existe, é necessário procurar um ortopedista e um fisioterapeuta. E, muitas vezes, pode ser necessária a realização de cirurgia para a correção de algumas deformidades", diz a médica.

Saltos até 2 cm


A ortopedista lembra que, atualmente, um Projeto de Lei (1885/11) determina que a altura do salto de calçados para menores de 12 anos não poderá ser superior a 2 cm. Em caso de descumprimento, os infratores poderão sofrer multa ou penas de detenção de seis meses a dois anos, além de serem proibidos de fabricar o produto ou ter a licença do estabelecimento cassada.

"Além disso, quem patrocinar a oferta desses calçados pagará multa de R$ 200 por cada par de sapato comercializado. A publicidade também é citada no projeto e deve trazer informações claras e em língua portuguesa sobre os riscos à saúde e à segurança decorrentes de sua utilização por crianças."

Por Juliana Falcão (MPress)

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