Por que não na escola? Pais optam pela educação em casa

Lugar de aprender é em casa

Não satisfeitos com o método de ensino das escolas, alguns pais vêm preferindo ensinar os seus filhos em casa. Essa medida tem sido alvo de muitos questionamentos por parte da sociedade. Para uns, em casa as crianças aprendem mais; já para outros elas se tornam mais inibidas e não conseguem se socializar. Mas qual é a diferença entre a educação em casa e na escola?

Segundo Fabio Schebella, diretor pedagógico da Associação Nacional de Ensino Domiciliar (ANED), na educação domiciliar o lócus do processo de ensino-aprendizagem é o lar da criança e não uma instituição educacional separada. Além disso, no ensino em domicílio, o processo educativo é de responsabilidade primária dos pais ou responsáveis pela criança, e não de profissionais da educação.

Schebella explica que alguns pais decidiram dar aos filhos uma educação diferenciada, aplicando as aulas em casa por inúmeras razões. E estas dependem das escolhas e características de cada família, entre elas crença, estreitamento de laços familiares e proteção contra a violência física, emocional ou simbólica.

"Os principais motivos levantados pelos pais são: desejo de assumir a responsabilidade integral pelo desenvolvimento dos filhos, busca por uma qualidade maior na educação das crianças, possibilidade de adaptar o processo educativo conforme as características e necessidades da criança, desenvolvimento de autodidatismo e autonomia intelectual dos filhos, crenças e opções da família, entre outros", afirma o diretor pedagógico da ANED.

O "homeschooling" (ensino domiciliar) reúne mais de um milhão de adeptos nos Estados Unidos. No Brasil, esse método de ensino não é expressamente proibido por nenhuma norma no ordenamento jurídico brasileiro, mas o assunto é alvo de muitos debates, pois a criança pode perder o convívio social.

É o que está acontecendo em Timóteo, cidade do interior de Minas Gerais. Há quase quatro anos, Cléber e Bernadeth Nunes resolveram tirar os filhos da escola para educá-los em casa. Essa decisão surgiu depois que o casal mineiro passou um período morando nos Estados Unidos. Na época em que os meninos deixaram de frequentar a instituição educacional estavam respectivamente na 5ª e 6ª séries do ensino fundamental.

Os pais foram denunciados ao Conselho Tutelar por não privarem seus filhos de o convívio social. Desde então, eles lutam para que sua opção seja reconhecida pelo Estado e, mesmo após ser condenado por ter tirado os filhos da escola, o pai continua ensinando em casa.

Fabio Schebella explica que o fato de uma criança não estudar na escola e ser instruída pelos pais em suas próprias residências não significa que o filho não vai aprender a se socializar. A diferença é que esse jovem não terá as influências negativas dos colegas de escola. "Na verdade, o que se tem nas instituições escolares é o que chamamos de ‘socialização negativa’, na qual o sujeito tem suas tendências psicossociais imaturas reforçadas por estar imerso em um ambiente com outros sujeitos da mesma faixa etária e com as mesmas características sociais", diz.

O especialista ainda ressalta: "A ‘socialização positiva’ ocorre quando um sujeito interage com pessoas mais experientes e maduras que ele, o que culmina em seu próprio desenvolvimento e amadurecimento psicossocial. Neste sentido, o mais importante é que as crianças interajam com outras crianças, adolescentes, adultos e idosos, ou seja, diferentes faixas etárias para se desenvolver através de uma socialização positiva".

O diretor pedagógico da ANED explica também que o material didático é selecionado para a criança conforme as necessidades e características de cada família. "Alguns preferem utilizar na íntegra o material didático de alguma escola ou sistema de ensino, outros preferem selecionar materiais alternativos e montar seu próprio currículo. Há também os que mesclam os dois sistemas ou, ainda, produzem seu próprio material", comentou Schebella.


A adaptação dos horários de aula varia muito de família para família, conforme menciona o pedagogo: "Eles são adaptados conforme a rotina familiar. Alguns preferem usar um sistema de horário similar ao escolar, enquanto outros preferem modelos alternativos". Ele também diz que as aulas domiciliares ocorrem nos mesmos dias da semana como na escola. "Na maioria dos casos, as crianças estudam durante a semana e fazem atividades extracurriculares no sábado, no domingo ou em ambos", disse Fabio.

Na escola, assim que as crianças se formam recebem uma certificação de conclusão do ano letivo. Já em casa, o certificado é através do ENEM, mas só pode ser feito quando os jovens completam 18 anos. De acordo com Fábio, a ideia é que, em breve, haja uma regulamentação específica para isso.

Por Stefane Braga (MBPress)

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