Pior mãe da América?

Pior mãe da América

Lenore Skenazy e o filho Izzy.

Ela deixou o filho de 9 anos atravessar sozinho a cidade de Nova York, de metrô, e foi considerada a pior mãe da América por causa disso. Izzy, o menino, está bem e nada demais aconteceu, depois daquele dia, a não ser pelo fato de que Lenore Skenazy acabou fundando o movimento "Free Range Kids", escrevendo um livro com o mesmo nome e defendendo a causa de que pais super protetores não fazem nada bem aos filhos.

Lenore culpa a televisão por muito do pânico criado e acredita que, de uma geração para outra, aquilo que era saudável, feliz e normal para a infância agora é selvagem e perigoso. "É como se a gente nadasse numa sopa de medo, com medo de processos, machucados, sequestros e até de culpa. As pessoas adoram culpar os pais por não serem responsáveis suficiente. O "Free Range" está tentando desmistificar isso. Nossa mensagem para os pais é que eles não devem viver no medo ou sentir que precisam trancar o filho no quarto para ele estar seguro. Criança precisa se sujar", afirma.

Numa entrevista especial para o Vila Filhos, ela conta sobre como decidiu deixar o filho sozinho numa cidade como Nova York, explica mais sobre o "Free Range" e diz ainda como os pais aqui do Brasil deveriam lidar com a insegurança e a criação dos pimpolhos. No site da Amazon é possível comprar o livro dela (Free Range Kids, Jossey-Bass, 2009), que ainda não foi editado em português e custa em média US$ 20 mais o frete.

Pior mãe da América

Divulgação

Como você "conquistou" o título de pior mãe da América pela mídia?

No ano passado, deixei meu filho de 9 anos pegar o metrô sozinho. Ele tinha pedido para mim e meu marido para levá-lo em algum lugar e deixá-lo voltar para casa. Ele sabe ler um mapa, fala o idioma e nós somos nova-iorquinos. Estamos no metrô o tempo todo. Então, num domingo de verão, depois de almoçar, o levei até a Bloomingdales e o deixei no departamento de bolsas femininas. Mas não o deixei despreparado. Dei um mapa, um cartão do metrô, moedas para telefone e US$ 20 para emergência. A loja fica sobre uma estação, da nossa linha local. Eu achei que ele estava seguro e acreditei que acharia o caminho ou perguntaria se precisasse de instruções.

E ele chegou em casa?

Ele chegou 45 minutos depois, radiante por causa de sua independência. Eu escrevi uma coluna sobre o assunto e, no dia seguinte, me vi em rede nacional me defendendo do título de "pior mãe da América". Fiz o blog naquele mesmo final de semana, para explicar minha filosofia. Eu acredito na segurança, amo a segurança - capacetes, cadeirinhas, cintos de segurança. Acredito em ensinar as crianças a atravessar a rua e acenar quando precisarem ser vistos. Mas também acredito que nossas crianças não precisam de segurança todo minuto que deixam a casa. Eles são mais seguros do que a gente pensa e mais competentes também. Eles precisam da chance de crescer e fazer o que fazemos, que é ficar na rua até os postes se acenderem.

Como é uma criança independente (free range)?

É aquela tratada como inteligente, jovem, capaz e não inválida que precisa de ajuda o tempo todo. De algum jeito, dentro do nosso entendimento em fazer o melhor para os nossos filhos, começamos a tratá-los como deficientes que precisam de ajuda o tempo todo, para se locomover ou comer. Uma criança "Free Range" é como as de antigamente, que queriam crescer e fazer coisas por eles mesmos. Então, quando nos mostram que estão prontos, a gente libera. Eu fui uma criança dessas porque vivi numa época sem a TV a cabo e a mídia em geral desesperando os pais sobre as ameaças do mundo aos filhos. Quando fomos criados, não existiam shows e séries mostrando a violência de um jeito depressivamente real. Mas há uma desconexão imensa entre os horrores mostrados na televisão e a vida real. Nos EUA, pelo menos, é o momento mais seguro para as crianças. Hoje, somos bombardeados por avisos que dão a sensação de que as crianças precisam de constante supervisão e ajuda, senão eles morrem. Isso é verdade se a criança está doente. Mas caso contrário, não é mesmo. A nossa presença aqui é a maior prova disso.

Pior mãe da América

O que fazer para diminuir o medo que a mídia potencializa?

Da próxima vez que começar aquele filme ou noticiário sobre crimes e violência, desligue a televisão e saia para caminhar, talvez até com as crianças. Fale com os vizinhos, olhe ao redor, sinta o lugar onde mora. Este é o mundo que você vive, não o que aparece na televisão.

Você escreveu que nós devemos deixar as crianças falharem, errarem. O que isso quer dizer?

Falhar é o novo sucesso. É claro que não queremos que nossas crianças sempre errem e caiam, mas se isso não acontecer às vezes, eles não vão aprender a levantar e viver a vida deles.

O que dizer sobre o medo de falar com estranhos?

Nós estamos tentando desmistificar esse mito. Temos que ensinar as crianças a falar sim com estranhos. Apenas assim vão poder pedir ajuda se acharem que estão em perigo ou se sentirem assustados. Crianças confidentes, que se sentem em casa quando estão pelo mundo, são mais seguras que aquelas criadas ao lado dos pais o tempo todo. Esse tipo de criança sabe se defender. É preciso ensinar às crianças a construírem o músculo chamado auto-confiança.


O que fazer em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde a segurança é uma preocupação generalizada?

Em lugares onde a segurança é ruim, há várias maneiras de ainda assim criar filhos independentes. Se é muito perigoso ir até a escola sozinho, faça com que o filho fique responsável por alguma atividade em casa, ensine a fazer o jantar e deixe-o fazer. Peça que sirva de babás dos mais novos. Dê responsabilidades na casa que não sejam perigosas, claro. Eu odeio o perigo e acredito muito em segurança. A ideia é lembrar que as crianças são mais competentes do que a gente acredita e tudo que eles querem é crescer. É nosso trabalho ensinar como fazer isso de maneira segura.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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