Pastores mirins - até onde a pregação é saudável?

Pastores mirins

Foto/Reprodução Yotube

Uma cena que vem acontecendo muito em igrejas evangélicas é a de uma criança, segurando o microfone, pregando para centenas de fiéis. Estes pequeninos, ainda em idade de desenvolvimento, falam alto, com certeza da palavra e envolvem multidões com suas verdades A religião para eles se tornou algo além do comum, é agora uma responsabilidade a mais que eles carregam.

Um exemplo que ficou famoso na internet é da pastorinha Ana Carolina Dias, que aos sete anos mostrou, por um vídeo no YouTube toda sua capacidade de pregação. A gravação estourou na internet pela surpresa de uma criança ter tal poder. Mesmo após o burburinho, hoje a "Menina Pastora", como ficou conhecida, tem 17 anos e continua suas atividades dentro da igreja.

Foi até feito um documentário sobre o tema, o "Bastidores: Pregadores Mirins", que conta a história de pastores ao redor do mundo, inclusive bebês, explorando até que ponto essas crianças são consequências de pais e congregações fanáticas que aguardam milagres a qualquer preço.

Até que ponto será que esta responsabilidade é algo saudável? Será que de alguma forma é prejudicial à infância do indivíduo? Para responder estas e outras questões conversamos com a psicóloga Luize Garé, que nos explicou como essa tarefa pode trazer males e também muitos benefícios a quem a pratica desde jovem.

O primeiro aviso que Luize nos dá é o seguinte: "Quando temos uma situação de crianças exercendo papéis inicialmente considerados pela sociedade como sendo próprios dos adultos, como por exemplo, modelos, cantores, atores e missionários, é preciso identificar se o desejo vem da criança ou de sua família e entorno social". O resultado desta questão, de acordo com a psicóloga, é apenas para diferenciar se a criança realmente se sente bem realizando aquele papel ou não.

E destaca outro ponto interessante: "Muitas vezes existem conflitos familiares presentes e a forma que a criança encontra de lidar com eles é assumindo comportamentos adultos para amenizar a tensão que se formou dentro de casa. A criança pode estar querendo ter algo ou se parecer com alguém para cumprir exigências da sociedade". E com essas mesmas exigências vêm à cobrança para que a criança se comporte como adulta, repreendendo cada vez mais suas manifestações de comportamento infantil.

Mas o que se ouve de grande parte dos pastores mirins é que eles gostam do que fazem e que não são forçados pelos parentes a realizar suas missões. Neste caso, o perigo que a psicóloga nos alerta é sobre a distância de seu mundo infantil e de seus amigos: "Pelo fato de perder as características infantis que seus coleguinhas também têm, a criança pode ser alvo de discriminações, atualmente denominado de "bullying", e seus vínculos sociais podem ser comprometidos". Daí a total importância de a criança realmente desejar o envolvimento com a atividade na igreja.

De acordo com a especialista, de qualquer forma a situação também pode ser prejudicial quando a criança é privada de seu mundo natural, ou seja, de brincar, de não ter tantas responsabilidades, ter tempo de fazer coisas prazerosas e de não ter uma carga de preocupações maior do que a que ela pode suportar.

Além disso, os pais têm que prestar atenção com o fato de, já na infância, seus filhos ou filhas exercerem imensa influência sobre grandes multidões: "A criança pode ter dificuldade em lidar com o sentimento de poder, achando que sempre será capaz de influenciar as pessoas e ditar regras", revela Luize.


Porém, exercer este papel não é necessariamente prejudicial: "Estas vivências podem contribuir para que a criança explore seus talentos e enriqueça suas vivências", conta a psicóloga. E frisa: "Os pais é que devem observar o comportamento e as emoções de seus filhos e avaliar a situação. Para isso, é preciso que o diálogo seja desenvolvido desde a tenra idade da criança. Dialogar não é impor e nem permitir que os filhos sempre deixem os pais sem resposta". Ou seja, a conversa se dá a partir do equilíbrio nas relações e é ela que possibilita que os pais passem aos filhos os valores que julgam corretos.

Portanto, não existem problemas em crianças que desejam expor seus sentimentos e crenças aos grandes públicos, desde que exista limites. E, neste caso, cabe aos pais a responsabilidade de trazer o equilíbrio a seus filhos, evitando problemas presentes e futuros.

Por Alessandra Vespa (MBPress)

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