Palmada, pode?

Palmada pode

Será que a famosa palmada nos filhos educa? Nossos pais e avós têm muitas histórias para contar sobre as palmadas que levaram de seus pais. As dores que foram provocadas por chinelos e cintos de couro dificilmente são esquecidas. E desde que o projeto sobre a Lei da Palmada entrou em discussão na Câmara, esse tipo de atitude retomou importância e passou a ser visto como agressão e uma forma degradante de educar os filhos.

Volta e meia vemos pais dando umas palmadas, puxões de orelhas ou sacudindo as crianças pelas ruas, na tentativa de que fazê-las obedecerem às suas ordens. E, por meio do quadro "Vai Fazer o Quê", do "Fantástico", exibido no domingo (08), pudemos perceber que essas atitudes incomodam muita gente.

Na cena fictícia, uma criança grita com a mãe e esta perde a cabeça, aumentando a voz, apertando os braços do filho e sacudindo-o. O que não faltou foi gente interferindo na relação dos dois, tentando acalmar os nervos de mãe e filho e dando sugestões de como resolver a situação da melhor forma, sem a necessidade de qualquer tipo de violência.

"Os pais tentam justificar o ato como sendo uma ‘palmadinha’, mas o termo no diminutivo não reduz o conflito, pelo contrário, coloca uma máscara", critica Luciana Barros de Almeida, especialista em Psicopedagogia e vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

Luciana afirma que é possível, sim, educar sem recorrer às palmadas. A partir de estudos acerca do desenvolvimento infantil, concluiu-se que qualquer tipo de agressão gera conflitos emocionais indeléveis, deixa o agredido com sentimento de inferioridade e provoca raiva, sensação de ser/estar errado, gerando culpa, revolta, rejeição contra si mesmo e contra o próximo.

É função dos adultos imporem limites aos filhos desde pequenos. Uma criança só é capaz de internalizar que seus pais a controlem se isso acontecer até os nove anos de idade, faixa etária em que acontece a estruturação de personalidade. Nesse período, que é mais curto do que parece, os pais precisam saber dizer não, lembrando que a frustração ocasionada pela negação ajuda os pequenos a amadurecerem e a valorizarem suas experiências pessoais.

Como não existe um manual, aprende-se a educar educando. "A melhor forma de orientar uma criança pequena é fazendo junto com ela, dando a ela o conhecimento do que pode e do que não pode ser feito. Mostre como você gostaria que ela fizesse e repita esta tarefa várias vezes, pois é exercitando que a criança vai se apropriando do que é para ser feito", diz a especialista.

Nesse processo, Luciana defende que o diálogo vale muito mais do que a palmada. "As regras precisam ser ditas de maneira clara e cumpridas por todos, inclusive pelos adultos em primeiro lugar, já que estes servem de moldes para as atitudes da criança. A autoridade dos pais ajuda a elaborar a identidade e autonomia de pensamento dos filhos."

A vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia pensa ainda que o grande desafio dos pais hoje e encontrar tempo para educar, para estar e querer ficar junto, para participar da vida dos filhos. Pois, apesar das mudanças tecnológicas, o dia continua tendo 24 horas e a semana, sete dias.

"A mudança está em nós, nas escolhas que fazemos. Penso que o fator tempo é a causa de muitos conflitos entre pais e filhos. Daí surgem outros, como falta de limites na educação das crianças, o distanciamento de amizades reais e o crescimento de amizades virtuais e o enfraquecimento dos laços familiares. É preciso refletir: como estamos aproveitando o nosso tempo junto com nossos filhos?"


Juliana Falcão (MBPress)

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