Os perigos do cigarro com sabor

Os perigos do cigarro com sabor

Misturar a nicotina a sabores como menta e chocolate têm sido uma forma de inserir os jovens cada vez mais cedo no vício do cigarro. Segundo uma pesquisa realizada pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) divulgada no ano passado, 45% dos fumantes de 13 a 15 anos consomem cigarros com sabor.

Esses produtos que maquiam o gosto amargo e o cheiro forte da nicotina causam dependência mais rapidamente. Segundo Dra. Maria Vera Cruz de Oliveira Castellano, diretora do Serviço de Doenças do Aparelho Respiratório do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e coordenadora da Comissão de Tabagismo da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT), os mentolados são pioneiros.

Em 2007 havia 21 marcas de cigarros com sabor para 188 tradicionais (11%), e em 2010 já eram 40 marcas com sabor para 144 tradicionais (28%). Esta mudança de cenário, na opinião da Dra. Maria Vera, pode ter ocorrido por um aumento de procura pelo público ou, inicialmente, como uma estratégia de marketing da indústria do cigarro para atrair o público jovem e compensar a redução de consumidores em decorrência das campanhas educativas. "Na década de 80, em torno de 30% da população adulta era tabagista e dados do Ministério da Saúde mostraram que em 2010 este percentual havia caído para 17%."

Dra. Maria Vera afirma que os cigarros com sabor são mais prejudiciais que os tradicionais. Além da nicotina, responsável pela dependência, devido à sua ação no sistema nervoso central, que estimula a liberação de dopamina, provocando uma sensação de bem-estar e reforçando a manutenção do hábito, outras substâncias são acrescidas a estes produtos.

"Há ainda o açúcar, que aumenta o potencial de dependência e é cancerígeno quando inalado. Os cigarros de essência de chocolate são broncodilatadores e podem aumentar a absorção da nicotina pelo organismo. Os mentolados têm efeito anestésico e diminuem a irritação na garganta provocada pela inalação da fumaça do cigarro. E os de essência de cravo podem causar hemorragia pulmonar", alerta Dra. Maria Vera.

Além dos sabores comentados pela coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPPT, estão disponíveis no mercado cigarros com sabores de pimenta, canela, morango, baunilha, cereja, tuti-frutti, entre outros. E a especialista lembra que existe uma tendência do jovem (maior consumidor deste tipo de cigarro) variar os sabores consumidos.

Narguilé entre os jovens

"É importante ressaltar que estes cigarros com sabor remetem a alimentos saudáveis, mascarando a idéia dos verdadeiros efeitos do cigarro e tornando mais remotas as doenças relacionadas ao tabaco", lamenta Dra. Maria Vera, que também comenta: "Outra forma comum de iniciação ao tabagismo se dá pelo uso de narguilé, que além dos sabores, envolve um clima de magia e exotismo. Tudo isso atrai o jovem e é facilmente inserido no seu universo.

As considerações da Dra. são ratificadas por meio de uma pesquisa realizada pelo Inca entre 2002 e 2005 com 13 mil alunos de 170 escolas em 10 capitais brasileiras. Os resultados mostraram que 11,7% dos estudantes entre 13 e 15 anos fumam regularmente e, destes, 44% preferiam cigarros com sabor.


A coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPPT explica que estes cigarros tiveram sua comercialização proibida nos EUA e no Canadá. Nos EUA, a argumentação foi de que os cigarros aromatizados facilitavam a iniciação e apresentavam índices de interrupção menores em relação aos tradicionais. "No Brasil tem ocorrido a discussão da interrupção do comércio dos cigarros com sabor, inclusive envolvendo a ANVISA, mas nada foi decidido neste sentido até o momento".

Por Juliana Falcão (MBPress)

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