O medo das crianças

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O medo das crianças

Crianças têm medos diversos. Medo de escuro, de ficar sozinho, de bicho-papão, do estouro de bexigas, de animais. Saber lidar com eles não é das tarefas mais fáceis tanto para os pequenos como para os pais, que também não devem tornar-se reféns dos medos dos filhos. Até que ponto os medos das crianças são normais? Confira na entrevista com a psicanalista e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Adela Stoppel de Gueller.

Como nascem os medos nas crianças? É natural que elas tenham medo?

Dra. Adela - Os medos são característicos nas crianças e nascem como uma forma de recortar as diferentes angústias que surgem no processo de constituição da subjetividade. Os medos nesse sentido indicam que a criança está se estruturando psiquicamente. Por isso é "natural" que elas tenham medos diversos. Aliás, devemos ficar alertas e preocupar-nos quando uma criança não tem medo de nada, quando ela é destemida.

Com que idade as crianças começam a manifestar seus medos e até que idade eles devem perdurar?

Dra. Adela - Os primeiros medos aparecem ao redor dos 8 meses, quando a criança fica com medo de ir no colo de um estranho, depois surge o medo de ficar sozinho, o medo de escuro, medos de animais, etc. A fase dos medos dura até os 7/8 anos geralmente, depois dessa idade passam.

Qual o limite do medo para a normalidade, ou seja, até que ponto sentir medo é normal? E em que momento os pais devem detectar que o medo de seu filho é maior que o normal?

Dra. Adela - Quando o medo é maior que o normal, ele se torna uma fobia. Isso justamente depende de que perdure no tempo sem se transformar. Se os medos vão mudando de uma coisa a outra estamos diante de um processo normal da infância. Em geral os pais se dão conta quando um medo é maior do que o normal porque eles são muito solicitados. Isso é por que os medos fazem com que a criança não consiga ter autonomia. Se ela tem medo de escuro, solicitará que os pais fiquem com ela no quarto ou pedirá para dormir com eles, se tem medo de cachorro não vai querer estar sozinha em situações nas quais possa haver um animal, etc.

O medo é um sentimento que nos limita a agir em muitas situações. Quais as consequências do medo na fase infantil?

Dra Adela - Exatamente, o medo é como uma espécie de limite "auto-imposto" e é por isso que ele é importante na estruturação do psiquismo, porque os diferentes medos vão construindo diferentes bordas, diferentes limites para a criança. Quanto menor é a criança mais ela precisa que seus pais lhe marquem os limites, quando os medos aparecem indicam que ela está conseguindo delimitar sozinha algumas bordas, ela está adquirindo a noção de perigo, ela está perdendo onipotência, se sentindo mais frágil, mais humana.

Medos "mal-resolvidos", ou seja, que apenas melhoram, mas não passam por completo durante a infância podem afetar negativamente a fase jovem ou adulta de uma pessoa?

Dra. Adela - Sim, sem dúvida. Quando eles não são resolvidos durante a infância, os carregamos para a vida adulta. A maior parte dos medos que os adultos têm vem de quando eles eram crianças e permanecem quase idênticos. Nesse sentido os medos dos adultos indicam, justamente, uma parte da subjetividade que permaneceu como infantil.


Como os pais devem lidar com os medos de seus filhos? É possível resolver a situação em casa ou a terapia é o melhor caminho?

Dra. Adela - É importante que os pais reconheçam o medo como um sentimento verdadeiro. Tentar dizer para o filho que é uma bobagem não vai ajudar. É importante também que possam reconhecer o medo como algo do filho, como algo do que ele está falando. Porque ao falar de um medo a criança está tentando por palavras a algo que a angustia. Nesse sentido, se os pais podem escutar e conversar com o filho e percebem que isso faz diferença, podem ficar tranquilos. Se percebem que falar com ele não adiantou é bom que eles possam oferecer ao filho a ajuda de um profissional que "entende" de medos de crianças e que vai poder ajudá-lo.

Por Adriana Cocco

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