O desafio de ser "pãe" - pai e mãe ao mesmo tempo

O desafio de ser pãe  pai e mãe ao mesmo tempo

Ser pai não é fácil. É preciso ser presente e apoiar os filhos em todas as horas, corrigi-los, ensiná-los e, muitas vezes, tomar as rédeas da casa. Mas alguns homens são muito mais do que pais. São aqueles que não contam com a ajuda das mães, por diversas razões. Então, acabam acumulando as duas funções e se transformando em verdadeiros "pães" (pais + mães).

Só quem viveu essa experiência na pele pode entender as várias dificuldades que eles enfrentam quando não têm a ajuda de uma mulher para criar os filhos. "Foi difícil conciliar trabalho com horários para levar e buscar na escola, cuidar quando eles estavam doentes e tentar educá-los da melhor forma", conta o marceneiro Anesio Alves, que criou sozinho um casal de filhos durante 10 anos.

Ele relata que se sentiu perdido diante da ausência da ex-mulher. "Sem a presença da figura materna, tive que me dividir em ser pai e mãe ao mesmo tempo. Ensinava e explicava como as mães e educava de forma mais rígida, como os pais fazem por estarem a maioria do tempo fora do lar", afirma.

Para o advogado Rafael Rocha Lopes, que cria sua filha longe da mãe, o mais complicado é tomar as atitudes corretas. "A maior das dificuldades é saber se o que faço está certo. Como sou só eu para dizer o não e os sim, nunca sei se estou dizendo sim demais ou não demais. Se é muito sim, vem o risco de uma criança mimada e um adolescente sem limites. Se é muito não, fica a dúvida se estou sendo repressor demais", diz.

Rafael sente falta da opinião da mãe, que é importante na hora de escolher o rumo da vida de sua criança: "O problema é a decisão para as coisas imediatas. Não tem como ficar perguntando se a mãe concorda ou discorda, a resposta para os questionamentos, dúvidas e atitudes da filha devem ocorrer naquele momento, não tem como postergar. Logo, essa troca de ideias e cumplicidade que um casal tem quando educa seus filhos fica limitada apenas a uma resposta onde diálogo é meu comigo mesmo".

A psicóloga e colunista do Vila Mulher Maria Cristina Capobianco explica o motivo da dificuldade dos homens assumirem tantas responsabilidades. "Existe uma razão cultural. O homem latino não é criado para cuidar da casa e nem dos filhos, e sim para ser aquele que trabalha fora e traz o suprimento financeiro para a família. Quando ele precisa ter contato com as tarefas domésticas, se sente incapaz e assustado, pois sempre aprendeu que esse não é o seu papel na sociedade", declara.

Segundo a especialista, eles têm o pensamento no trabalho, o que dificulta que enxerguem as necessidades mais simples de uma casa. Por isso, fica complicado administrar o tempo e definir o que é prioridade e o que pode esperar para ser feito. "Os detalhes mais simples, como ajudar as crianças nas tarefas escolares, preparar a comida ou separar o uniforme dos filhos, podem ser esquecidos por causa da falta de hábito", afirma.

O trabalho, algumas vezes, acaba se tornando um impedimento para uma aproximação maior entre os pais e filhos. Rafael Rocha Lopes relata que gostaria de ser mais presente, porém não pode deixar a vida profissional de lado. "Sou advogado, tenho envolvimento com a OAB local, dou aulas em duas faculdades de Direito. Tento diminuir o ritmo para ficar um pouco mais com minha filha. Entretanto, é comum eu chegar em casa e minha filha já estar dormindo. É um peso na consciência que carrego, apesar das tentativas de mudança", diz.

Entretanto, quando o pai é mais sensível, tende a lidar melhor com a situação. "Os homens sensíveis têm maior facilidade para lidar com os pequenos e para vencer obstáculos, pois são mais cuidadosos e atenciosos", declara a psicóloga.

Além dos obstáculos físicos, os "pães" também enfrentam dificuldades emocionais, especialmente aqueles que passam pela viuvez. "Eles não entendem por que têm que cuidar dos filhos se eles mesmos precisam de cuidados e estão sozinhos. Diante disso, buscam várias formas de fuga, ficando depressivos, levando outra mulher para suas casas rapidamente, tornando-se alcoólatras ou até abandonando os filhos. Isso não significa que o pai não ama as crianças, mas sim que ele se sente sobrecarregado", fala Maria Cristina.

O segredo para arcar com as novas responsabilidades é entender que cada um tem seus limites, e que a figura paterna é um referencial para os filhos. "Os homens precisam aceitar que não é possível ser pai e mãe ao mesmo tempo. Isso está fora da capacidade humana: ou se é pai ou se é mãe. No entanto, um bom pai influencia as crianças e adolescentes de modo positivo", acredita a especialista.

Além disso, é preciso aprender com os obstáculos, e adquirir experiência: "As dificuldades são sofridas na hora, mas ajudam a lidar com o que vier pela frente. Os pais não devem se desesperar, pois essa situação é passageira. Eles devem se abrir, contar o que passam aos filhos. Dessa maneira, poderão desenvolver uma relação riquíssima com os pequenos".


Não existe uma receita pronta para um homem criar os filhos sozinho, mas ele pode buscar a ajuda de quem já superou essa fase. "É preciso ter tranquilidade, serenidade, paciência e firmeza nas decisões", opina Rafael. Anesio, que hoje tem dois filhos crescidos, deixa seu conselho. "Tenha muita paciência, preste atenção nos sinais que seus filhos dão e curta muito cada fase de vida deles. Sempre declare o seu amor", diz.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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