Novas Brincadeiras

Crianças gostam de brincar. Meninas brincam de casinha e de princesas. Meninos brincam de carrinhos e de luta. Meninas são jeitosas e delicadas. Meninos são brutos e muito agitados. E, assim, vamos cultivando padrões de comportamento seculares.

É evidente que existem diferenças entre os gêneros, sejam elas biológicas, psicológicas ou sociais. E é esperado que meninos e meninas as expressem desde cedo. Mas, boa parte destes “traços” aceitos como “naturais” são criados pela cultura e não a partir das verdadeiras habilidades e gostos de cada um.

Certa vez, uma amiga presenteou o filho de outra amiga com uma pia de madeira. Destas para serem colocadas no quintal, que sai água de verdade da torneira! Tem armário embaixo para guardar coisinhas e é do tamanho adequado para a criança brincar em pé. Uma verdadeira delícia. Pode render horas de entretenimento gostoso e saudável. Não rendeu, neste caso. O pai da criança presenteada, um jovem moderno e esclarecido, exigiu que aquele objeto “nocivo à construção da identidade masculina de seu garoto”, desaparecesse imediatamente da casa. E assim foi feito. A pequena pia, de menina, foi trocada por uma estação de ferramentas, de menino. “Tá pensando que meu filho é o quê?”

Há algum tempo, a Corolle, a mais tradicional loja de brinquedos da França, criou oficinas para que meninos e meninas se divirtam, lado a lado, brincando com bonecas, num ateliê que simula o espaço doméstico. As crianças brincam de dar comida, banho, trocar a fralda e ninar seus “bebês”.

A proposta é contribuir com a formação do “novo homem”. Até porque o “velho” anda meio folgado. Na França, somente 2% dos homens casados passam suas roupas, diferente dos solteiros, que já incorporaram esta atividade às suas rotinas. Ou seja, é só casar e o príncipe encosta o corpo. Sabemos muito bem que, aqui nos trópicos, a situação é ainda pior.

A iniciativa da Corolle parece interessante. Não sejamos ingênuos, pois, antes de ser um compromisso social, trata-se mesmo é de um compromisso com o faturamento da indústria, já que as vendas de bonecas na França estavam em queda. De qualquer forma, como em tudo, as mudanças se dão a partir da educação.

Pais e mães pós-modernos, portanto, se seus meninos lhes pedirem para trocar a fralda da boneca da irmã, pode incentivá-los sabendo que estão contribuindo com o futuro da humanidade. E não se preocupem em sair correndo para marcar uma reunião com a psicóloga.

Sabe aquele comercial de margarina (papai + mamãe + dois filhos contentinhos), que crescemos vendo nos breaks televisivos? Aquele, que de tão freqüente e repetitivo, passou a ser usado como uma expressão: “família de comercial de margarina”? A mesma família “modelo-de-felicidade” que vemos, a todo tempo, nos comerciais de bancos, cartões de crédito, produtos de limpeza e tantos outros? Pois é, ainda faz todo sentido, sim.

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Segundo o IBGE, metade das famílias brasileras são compostas por pai, mãe e filhos. Mas, e a outra metade?

As famílias estão em transformação. Os modelos tradicionais se abrem, mais e mais, às novas configurações, que geram novos comportamentos, que geram novas demandas.

As mesmas pessoas, em novas situações. Mães que vivem sozinhas com seus filhos, amaldiçoarão cada lâmpada queimada. Homens que acolhem seus filhos em suas novas casas, finalmente perceberão que lençóis limpos não se reproduzem no armário.

Interessante será se pudermos ver, com mais freqüência, as famílias e, sobretudo as mulheres, retratadas na publicidade de formas menos convencionais.

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea.Contato: umaauma@umaauma.com.br

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