Na intimidade dos filhos

Na intimidade dos filhos

Se os pais pudessem eleger a seara mais complicada de enfrentar na educação dos filhos, certamente votariam mais naquela que tem relação com a intimidade deles. É difícil cuidar quando os bebês são pequenininhos, frágeis. Mas parece que fica mais complexo quando a adolescência chega. Como interferir em assuntos íntimos, por exemplo? Como falar da mudança do corpo ou da primeira vez?

"A relação dos pais com os filhos deve ser construída desde muito pequenos. Apego, confiança e intimidade vão crescendo a cada dia e os pais devem ter a consciência de que precisam possibilitar o desenvolvimento destas características na relação pai-filho", diz a psicóloga Ana Lúcia Castello, colaboradora do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. Segundo ela, para falar com os filhos sobre a intimidade é necessária muita disponibilidade em assuntos ligados ao crescimento das crianças e isto precisa ser feito de uma forma natural.

"Para as crianças menores é importante acrescentar ilustrações mais lúdicas, com desenhos em livros ou de artigos retirados da internet. Para os maiores, entre 11 e 13 anos, podem-se utilizar inicialmente os recursos de livros e artigos, exemplos de aulas que tenham tido na escola, mas também situações de experiências pessoais", ensina. É preciso também tentar fazer a criança entrar em contato com as mudanças perceptíveis do desenvolvimento corporal. "Partindo desta percepção, podem-se introduzir lentamente os conceitos destas mudanças, falando abertamente e sem censura sobre todos os aspectos que causam as transformações corporais. É importante que os pais leiam sobre o assunto tenham um domínio para responder eventuais perguntas".

Quando o assunto é sexo, a coisa pode parecer mais nebulosa. Portanto, é importante que os pais abram sim o canal para falar sobre estes assuntos, mas desde que a criança comece a fazer perguntas do tipo "como eu nasci ou de onde vêm os bebês?" "Os pais precisam estar preparados para estes questionamentos da criança. Para a menor, podem responder exatamente o que pergunta, ou seja, tente sanar as dúvidas sendo muito objetivo, sem rodeios.

Num momento posterior, quando a criança já ouviu alguma coisa na escola ou dos amigos, os pais podem responder o que pergunta e acrescentar informações importantes para sanar a curiosidade", ensina. Mais uma vez, utilizar livros para explicar as mudanças corporais e o desenvolvimento físico é uma estratégia importante. "Para falar do ato sexual em si, os pais podem esperar a pergunta direta da criança e responder naturalmente".

Aproveitar os assuntos que saem em revistas, jornais e internet para ampliar a conversa com os filhos é uma boa ideia. Isso significa, por exemplo, pegar um artigo sobre gravidez na adolescência, pedir aos filhos que leiam e depois discutir pontos importantes. "Este é um canal bastante fácil e eficaz para aproximar o vínculo pais-filhos e deixar este canal de comunicação sempre aberto, porque se isto acontecer, fatalmente o adolescente procurará os pais para conversar".

Outro assunto que pesa é o círculo de amizade dos filhos - que normalmente não inclui pai e mãe. "A amizade entre pais e filhos é muito importante, mas mais importante é a formação do vínculo pai-filho com respeito, autoridade e obediência. Desta forma, este vínculo pode existir. O que temos visto no dia-a-dia são pais amigos do filho de uma forma que eles não os respeitam", afirma.

Ela lembra ainda que os pais devem ter muito respeito aos amigos dos filhos, mas devem alertá-los de algum comportamento inadequado, sem rotular as companhias. "É mais eficaz que os pais mostrem que existem algumas características daquele amigo que não gostam e que é importante que os filhos observem isto", diz. Quando o jovem percebe que o amigo realmente tem estas características negativas, muitas vezes afasta-se naturalmente. "Se isto for feito por imposição dos pais é mais difícil de acontecer".


Ainda no mundo dos adolescentes, o quarto é o palácio intocável. A bagunça normalmente enlouquece as mães, que enfrentam guerras pela manutenção da liberdade e da autonomia dos filhos dentro do seu espaço. Ana Lúcia lembra que este comportamento bagunceiro também é um construído com o passar do tempo. Os pais têm que ensinar que as coisas devem ser colocadas nos determinados locais da casa ou do quarto. "Geralmente os filhos não se dão conta do quanto é importante arrumar seu quarto porque sempre tem alguém que arrume por eles", pondera. Segundo ela, estabelecer as regras familiares é uma questão dos limites que devem ser colocados na educação. Privá-los de alguma coisa que gostam muito pode ser um caminho para que eles modifiquem este comportamento.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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