Meninos com bonecas, meninas com bolas

Brincadeira de menino e de menina

A mãe Carolina* cuida sozinha do pequeno Carlos*, de quatro anos. O ex-namorado Pedro é um pai muito ausente e apenas dá atenção para suas duas filhas, do seu primeiro casamento. Em meio a essa confusão, Carlos busca carinho do pai e, com ciúmes das suas irmãs, chega a provocar a mãe de várias formas.

Certa vez, o menino chegou a se vestir de mulher. Foi até o guarda-roupa, colocou um vestido rosa, uma sandália e começou a brincar com algumas bonecas, depois disso a situação se repetiu por várias vezes. A mãe achou estranho o comportamento do filho, chegou a pensar que ele teria alguma tendência homossexual, mas, após procurar um psicólogo, a razão era clara: a reação dele era para chamar atenção e conseguir o carinho do pai.

Diante desse fato ou outros semelhantes, a dúvida dos pais ocorre em relação à orientação sexual das crianças no futuro. Muitas mães acreditam que seus filhos podem ter características femininas caso coloquem uma fantasia de branca de neve. Também têm receio que as meninas desenvolvam uma tendência mais abrutalhada se praticarem lutas marciais.

Em princípio, a questão da divisão entre brincadeiras é cultural. Está relacionada a normas sociais que têm origem na desigualdade entre os sexos. A psicóloga Regina Elia dá outra uma explicação. “Na verdade se trata de uma questão hormonal. Os hormônios da testosterona nos meninos os fazem desejar espaços mais amplos para a prática de brincadeiras e esportes competitivos, tudo aquilo que envolve mais força e energia. Em contrapartida, o hormônio estrógeno, presente nas meninas em maior intensidade, nos meninos em menor intensidade, as torna mais centradas em busca de atividades e brincadeiras que envolvam mais afetividade e passividade”.

Mas deve se ressaltar que ambos os sexos possuem os dois hormônios, sendo assim, é comum meninas freqüentarem aulas de futebol ou ver meninos com bonecas. Conforme a psicóloga, alguns países de primeiro mundo valorizam a brincadeira para ambos os sexos, e não separam brinquedos masculinos e femininos.

“Logo aos dois anos de idade já começa a querer separar os brinquedos como, ‘esse é de menina e esse é de menino’. Mas isso varia muito do que os mais colocam na criança. Lembrando sempre que ela aprende por imitação e vai se espelhar nos pais. O ideal é ter brinquedos variados, que independem do sexo, para que os filhos tenham mais liberdade e vejam o que gostam”.

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A escolha por brincadeiras femininas não representa que os meninos serão homossexuais no futuro. “Porque eles também têm hormônios femininos, em menor proporção, que fazem deles um ser mais compreensivo. Brincar de boneca para um menino é diferente de brincar de boneca para uma menina”, explica.

Na opinião da psicóloga, todas as brincadeiras até os seis anos de idade, aproximadamente, são para ambos os sexos. É nessa fase que elas estão descobrindo o mundo através da brincadeira e como funciona o comportamento dos adultos. “É natural que eles queiram se sentir no papel do sexo oposto algumas vezes”. Em alguns casos, a troca é até indicada. Regina diz que as brincadeiras ditas "femininas" para os meninos auxiliam em alguns conflitos, como rivalidde entre irmãos ou discussões entre os pais.

“Tudo isso pode ser resolvido nas brincadeiras de casinhas e bonecas. Isso não tem a ver com homossexualidade, mas sim com resolução de desavenças. O inverso serve para as meninas, que precisam algumas vezes de armas e lutas para descarregar sua raiva e agressividade”.

Os pais também devem levar em consideração que os papéis sociais se modificaram e a igualdade dos sexos está cada vez mais presente. Mulheres trabalham fora e os homens participam da casa. E as crianças são reflexo dessa mudança de comportamento.

*Nomes fictícios

Por Juliana Lopes

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