Manifestações: como levar o tema para as escolas?

Manifestações como levar o tema para as escolas

Foto: Dan Pangbourne/Image Source/Corbis

O gigante acordou. Essa frase tem sido dita pelos quatro cantos do Brasil há alguns dias. Manifestações por todo o país têm levado às ruas milhares de pessoas cansadas de não serem bem representadas pelos políticos que ajudaram a eleger.

Reclamam do aumento das passagens do transporte público, da má qualidade da educação, da falta de investimentos na saúde, enfim, colocaram para fora um monte de insatisfações que estavam engasgadas há anos. Mas e dentro das escolas, como esse tema tem sido abordado com os estudantes?

O professor de História Rodrigo Abrantes, coordenador do Colégio Joana D’Arc, conta que no Ensino Médio o assunto foi inserido nas temáticas das disciplinas de História, Geografia e Filosofia. "Ocorreram debates em torno das informações disponíveis nos meios de comunicação e o assunto chegou a ser incluído como tema de avaliação de Filosofia."

No Ensino Fundamental quem levou o assunto para a sala de aula foram os próprios alunos, que passaram a interpelar os professores. Eles tiveram algum contato com a manifestação, seja ele involuntário (como estar no trânsito no momento de um protesto) seja por meio dos noticiários.

"O posicionamento dos docentes foi o de procurar explicar o conflito social sem cair em maniqueísmos nem suprimir a angústia de não saber exatamente o que está ocorrendo, nem qual será o resultado", explica o professor. "A percepção da consequência de uma ação é perfeitamente assimilável a um aluno do Ensino Fundamental. Dessa forma, eles conseguem ir encadeando os fatos, e, na medida em que isso ocorre, questões vão surgindo."

O Colégio Joana D´Arc defende que os alunos precisam ser educados para o mundo real. Assim, evitaram camuflar ou enfeitar o assunto, optando por escutar e ajudar os alunos a elaborarem os fatos.

Rodrigo conta que alguns alunos do Ensino Médio compareceram a algumas das manifestações e a grande maioria participou do grande debate público que transformou as redes sociais desde o início do movimento. Outros quiseram ir, mas não obtiveram o consentimento de suas famílias, e ainda houve aqueles que foram acompanhados pelas famílias, alguns deles do Ensino Fundamental.

"Os alunos estão de acordo com as manifestações, consideram que se trata de um ato legítimo. Porém, a maioria não apoia atos de violência. Dessa forma, eles tendem a estar em correspondência com o comportamento da maioria dos manifestantes", comenta o professor. "Os alunos do Ensino Fundamental não têm muito discernimento sobre ideologias políticas, relação entre movimentos sociais e governos etc. Em função disso, muitos trazem para a sala de aula assuntos que conversaram previamente com suas famílias. Dessa forma, a sala de aula acaba refletindo a diversidade de posicionamentos que encontramos em outros locais de debate sobre o assunto", completa.

Debates em sala de aula

Walter Maejima, professor de Geografia do Ensino Médio do Colégio São Luís conta que durante as aulas de sua disciplina no 3º ano do Ensino Médio os fatos ocorridos geraram questionamentos/dúvidas por parte dos alunos. Assim, ele contextualizou os fatos, os grupos envolvidos, o posicionamento das partes envolvidas, os interesses em jogo.

Os alunos levaram para a aula informações que dispunham, fizeram questionamentos e apresentaram os seus pontos de vista. "Na segunda-feira (17/06) utilizamos uma aula para discutir a questão da mobilidade urbana, o modelo de transporte adotado no Brasil até chegarmos às reivindicações e manifestações que estavam ocorrendo", explica Walter. "E, independentemente das orientações do colégio, vários alunos se organizaram e participaram das manifestações, em especial a realizada no dia 17/06, de acordo com as suas convicções e o consentimento dos seus responsáveis."

Avaliando a opinião dos alunos, o professor conclui que eles consideraram importante o fato de poder apresentar a sua insatisfação e apresentá-la aos governantes de uma forma organizada e pacífica. Ao mesmo tempo, lamentaram os excessos cometidos por uma minoria, fato que não invalida o teor das manifestações.

Como docente, Maejima vê com bons olhos a ideia de levar esse tipo de debate para dentro da sala de aula. "A disciplina Geografia, assim como a História, a Sociologia e Filosofia e Redação, tem como foco a discussão dos temas atuais e o relacionamento com os desafios mais urgentes e relevantes da sociedade, favorecendo uma consciência crítica aos alunos."

No Colégio Global o assunto atingiu todas as disciplinas, uma vez que todos os professores tiveram o cuidado de propiciar um diálogo aberto com os alunos. "A discussão abre espaço para a escola despertar em seus alunos o interesse verdadeiro pelas causas sociais, não somente das que são de seu interesse imediato, mas também por aquelas que atendem às necessidades de outros grupos", comenta a psicóloga Eliana de Barros Santos, diretora do Colegio Global.

Por meio dos debates foi fácil perceber a curiosidade dos alunos, uma vez que tudo é muito novo para estes jovens. "Eles não vivenciaram manifestações e protestos significativos, somente comemorações como campeonatos de futebol, Olimpíadas. Nada politizado e de amplo espectro como o que esta acontecendo", diz Eliane.

Ela faz questão de ressaltar que esta é a primeira oportunidade que a escola tem de incitar a reflexão prática de muitos conteúdos aprendidos até então nas aulas de Filosofia e História e possibilitar ao aluno viver a história. E o educador tem a chance de deixar de lado seus "achismos" e rever conceitos, de forma que possa trabalhar com os alunos e desenvolver uma postura crítica baseada em fatos.


"As manifestações serviram de base para que as escolas ajudassem os estudantes a exercitarem o olhar para fora dos seus muros e ver o que outras pessoas vivenciam em seu dia a dia, qual é a realidade do seu país e quais os deveres dos governantes. Os alunos falam, questionam e verificam a repercussão, as consequências de sua forma de agir tanto em seu grupo (posição dos seus colegas, professores, pais) como na sociedade maior", analisa a psicóloga.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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